Foi assim com aqueles que se autodenominam “conservadores”, historicamente defensores de bandeiras como o endurecimento das penas, a redução da maioridade penal e o fim de supostos privilégios para condenados. Bastou, porém, que seus próprios “líderes” fossem alcançados pela Justiça para que operassem uma guinada completa, de 180 graus.
De repente, expressões como “isso é injusto”, “não é proporcional” e “onde ficam os direitos humanos?” passaram a ser proferidas com olhos arregalados e veias saltadas no pescoço — justamente por aqueles que, até ontem, desprezavam qualquer debate sobre garantias legais.
Ao proporem uma lei para reduzir penas, admitiram, ainda que de forma implícita, a existência dos crimes cometidos na tentativa de se perpetuar no poder. O mesmo se observa ao restringirem essa possível redução aos atos praticados estritamente em 8 de janeiro. Reconhecem, assim, uma série de condutas graves: a tentativa de obstrução do voto por meio de bloqueios em estradas; o planejamento de atentados contra autoridades constituídas; a organização de acampamentos com o objetivo de pressionar as Forças Armadas a aderirem a um golpe; e a criação deliberada de um cenário de caos em Brasília para forçar uma intervenção.
Como se não bastasse, houve ainda a tentativa de mobilizar agentes externos, buscando induzir sanções internacionais contra o Brasil, com potenciais prejuízos ao próprio país — numa lógica que, em suas próprias palavras, admitia até um cenário de “terra arrasada”. Agora, no entanto, assumem a posição de vítimas e clamam por direitos que antes rejeitavam.
Historicamente, o Brasil já enfrentou diversas tentativas de golpe de Estado, muitas das quais ficaram sem a devida responsabilização. Essa ausência de consequências contribuiu para a recorrência dessas investidas ao longo do tempo.
O momento atual, portanto, se destaca por representar uma rara situação em que atos dessa natureza são efetivamente levados à Justiça. Ver esse processo ser relativizado ou enfraquecido levanta um alerta importante sobre os rumos institucionais do país.
No fim, mais do que um embate de narrativas, trata-se de um teste essencial: a lei vale para todos ou apenas para alguns?

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