quarta-feira, 5 de agosto de 2026
EP - 4 - Manuzé
Manuzé nunca me ensinou a escrever poesia. O que ele me ensinou foi muito maior: mostrou que a vida também pode ser uma obra de arte
quinta-feira, 30 de julho de 2026
EP -3 - Meu Amigo Zé.
Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 3 — Meu amigo, Zé.
Tenho um amigo de adolescência, o Zé, que é muito mais do que um simples amigo.
Aliás, existe nome mais simples do que "Zé"?
Pois essa simplicidade toda sempre escondeu uma pessoa extraordinária.
Sem ser cientista, filósofo ou mestre espiritual, desde muito jovem ele já vivia segundo uma filosofia própria. Enquanto muitos procuravam respostas nas pessoas, ele parecia procurá-las na natureza, no silêncio e naquilo que escapa às explicações. Sempre caminhou em busca da paz interior e do encontro com o inexplicável, o impalpável e o intangível.
Vivemos muitas aventuras juntos. Éramos quase "penetras profissionais" dos fins de semana. Nossa missão era simples: divertir-nos. Mas havia uma regra silenciosa que nunca quebramos: o respeito. Queríamos apenas aproveitar a vida, conhecer gente nova, dançar, cantar e colecionar boas histórias.
Também compartilhávamos outros prazeres: escrever, tocar violão e compor. Muitas tardes terminavam na Praça de Casa Forte. Sentávamos à sombra das árvores e transformávamos cenas do cotidiano em letras de música. Confesso que raramente nascia uma obra-prima. Mas isso nunca foi importante. O verdadeiro encanto estava em descobrir que qualquer momento da vida podia se transformar em arte.
O Zé tinha ainda um talento que sempre me fascinou. Desenhava figuras inteiras com um único traço contínuo. Nunca esqueci um beija-flor visitando uma flor. Era de uma simplicidade desconcertante. Um único risco no papel e, de repente, a natureza inteira parecia respirar diante dos nossos olhos.
Talvez fosse inevitável que aquele rapaz acabasse encontrando seu lugar entre as plantas. O amor que sempre teve pela natureza o levou às matas, às orquídeas e, finalmente, a uma forma muito própria de viver. Meu amigo tornou-se orquidófilo. Mas, muito antes disso, já cultivava delicadamente tudo aquilo que realmente importa.
A vida, com seu fluxo inevitável, afasta as pessoas. Mas os amigos de alma nunca desaparecem. Como diz a canção, a amizade verdadeira a gente "guarda para certas ocasiões". E o mesmo tempo que um dia nos separou encarregou-se de nos colocar frente a frente outra vez, devolvendo o conforto e a alegria que só os reencontros sinceros conseguem oferecer.
Hoje, quando olho para o Zé, tenho a impressão de que ele finalmente encontrou a sua verdadeira morada. Vive em um sítio, cercado pela terra e pelas orquídeas que tanto ama. Parece ter construído uma vida em perfeita harmonia com aquilo que sempre carregou dentro de si.
Foi observando sua trajetória que aprendi uma das lições mais bonitas da amizade.
Há pessoas que passam a vida tentando encontrar o seu lugar no mundo. Outras, como o Zé, passam a vida construindo um mundo onde finalmente podem ser quem sempre foram.
Talvez seja por isso que gosto tanto de reencontrá-lo. O Zé me lembra que a paz não é um lugar onde chegamos. É uma forma de caminhar.
terça-feira, 28 de julho de 2026
EP- 2 — O tempo que ficou em nós
Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 2 — O Tempo que ficou em Nós!
A gente não se cansa, ou melhor, talvez já esteja cansado, mas ainda assim continuamos tentando aprisionar o tempo.
Inventamos a fotografia, o cinema, as cartas e, mais recentemente, os e-mails e as mensagens de WhatsApp. Tudo para guardar um instante, para dizer: “isso aconteceu, isso existiu”.
Mas, sabemos que nada disso é o momento vivido. Uma fotografia não mostra o que sentimos, Uma carta não guarda o calor da voz de quem as escreveu. É como a frase de Magritte: “Isto não é um cachimbo”. A imagem nunca é a própria coisa.
O passado vive na memória. O futuro, na expectativa. Eles nunca se encontram. O único lugar onde o tempo realmente acontece é no presente — e ele desaparece no exato momento em que tentamos segurá-lo.
Hoje percebo que talvez a resposta mais humana seja outra: não conseguimos aprisionar o tempo porque ele nunca foi feito para ser guardado. O máximo que conseguimos preservar é o significado que ele deixou em nós.
A memória não conserva os acontecimentos; ela conserva aquilo que eles fizeram conosco. Não me lembro de um abraço pelo número de segundos que durou, mas pelo afeto que despertou. Não guardo um pôr do sol pela posição do Sol no horizonte, mas pela paz que ele me trouxe.
E, pensando nos meus trinta anos de casamento, entendo algo ainda mais profundo. Eu costumava imaginar que estava construindo uma história ao lado da mulher que escolhi. Hoje percebo que, enquanto construía essa história, ela também me construía.
Esses trinta anos não ocuparam apenas três décadas da minha vida. De certa forma, ajudaram a moldar os meus sessenta e oito anos. As pequenas conversas, as dificuldades compartilhadas, as alegrias, os medos, as conquistas das filhas, os silêncios compreendidos — tudo isso foi me transformando pouco a pouco.
Somos como água dentro de um recipiente em movimento. O recipiente muda, o mundo o sacode, e nós vamos encontrando uma nova forma sem deixar de ser quem somos.
Talvez seja por isso que, aos sessenta e oito anos, consigo olhar para trás com outra perspectiva. Quando observamos um vitral muito de perto, vemos apenas pedaços de vidro colorido, sem conexão aparente. Mas basta dar alguns passos para trás e a figura surge. Os pedaços nunca mudaram de lugar. O que mudou foi a maneira de vê-lo.
Hoje sinto que estou vendo o vitral da minha própria vida com um pouco mais de clareza.
E talvez essa seja a maior descoberta de todas: não colecionamos lembranças para vencer o tempo. Colecionamos lembranças para que o tempo não leve embora o significado daquilo que vivi… Porque o instante passa, mas o significado fica.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
EP - 1 - Haaland x Dadá Maravilha: Meio século de semelhanças.
Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 2 — O Tempo que ficou em Nós!
Se alguém dissesse que surgiria um atacante de quase dois metros de altura, forte como um touro, rápido como um velocista e que pisaria na área apenas para fazer gols, muitos responderiam: Esse é Haaland...
Hoje esse jogador existe. Nasceu na Noruega e atende pelo nome de Erling Haaland.
Muitos dirão, “não dá pra comparar, o futebol mudou muito”.
É claro que o futebol mudou. A preparação física evoluiu, os gramados melhoraram, a velocidade do jogo aumentou, a tecnologia de bolas, calçados e roupa. Mas há características que parecem ser imutáveis: colocar a alma da chuteira e acreditar no que parece inacreditável são exemplos.
Dadá e Haaland são centroavantes que não entram em campo apenas para participar do jogo; estão ali para perturbar a defesa, dividir toda jogada e disputar o jogo sem medo, com uma coragem insana.
Não são artistas da condução de bola, nem mestres da construção das jogadas, muito pelo contrário: “são pernas de pau”. Mas, quando a bola chega perto da área, eles aparecem como quem conhece um segredo que os zagueiros nunca conseguem descobrir.
Dadá dizia: "Não existe gol feio. Feio é não fazer gol."
Haaland aprendeu essa frase de forma intuitiva, e a leva às últimas consequências.
Os dois compartilham da mesma qualidade: ocupam os espaços certos antes que os adversário percebam, quando a defesa chega eles já são donos do espaço.
Também impressionam pelo jogo aéreo. Dadá foi considerado um dos maiores cabeceadores da história do futebol brasileiro.
“só tem três coisas que param no ar: helicóptero, beija flor e Dadá Maravilha”
Haaland faz da impulsão e do tempo de bola uma arma semelhante, embora acrescente uma velocidade incompatível com alguém de quase 1,95 metro.
Os dois compartilham da habilidade de fazer parecer simples aquilo que é extremamente difícil.
Para quem assiste, parece só um toque, um desvio, uma cabeçada, um empurrão para as redes. Mas chegar exatamente naquele lugar, naquele momento, é um talento que poucos possuem.
As diferenças existem. Haaland vem do futebol científico, da alimentação controlada, das estatísticas, GPS, biomecânica e análise de desempenho.
Dadá, por sua vez, era filho do improviso brasileiro. Muito daquilo que aprendeu veio da repetição, da tentativa e erro, da intuição e da irreverência que sempre carregou consigo.
Enquanto Haaland fala pouco e deixa os números responderem por ele, Dadá Maravilha inventou o marketing pessoal, fazendo das entrevistas um espetáculo à parte e provocação aos adversários e torcidas.
Foram dele a célebre provocação: "Não existe gol feio. Feio é não fazer gol." , "Só existem três poderes no mundo: Deus no céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área."
Eu acredito que Haaland jamais diria isso, mas, quando entra na área, joga exatamente como alguém que acredita nessa frase.
Talvez a maior homenagem que se possa fazer a Dadá seja esta:
É uma pena que ele tenha nascido cinquenta anos atrás, pois com a preparação física moderna e toda a ciência do esporte disponível, teríamos o nosso próprio Haaland em campo.
Ou talvez alguém pense hoje como eu: "esse menino joga mesmo é como o Dadá Maravilha."
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Seminovos
Nós, os seminovos, que tivemos a coragem — ou a insanidade — de nascer nas décadas de 1950 e 1960, não fomos feitos. Fomos forjados. Isso mesmo: uma mistura de têmpera e malhação.Nascemos no berço de uma civilização em ebulição. Vivemos as viagens espaciais, a conquista da Lua, o primeiro boom da computação. As famílias atravessavam a transição da tradição para a modernidade. As notícias já não vinham apenas dos jornais e revistas; chegavam pela televisão, invadiam nossas casas sem pedir licença.
Na infância, não encontrávamos respostas prontas — precisávamos construí-las, muitas vezes errando, repetindo, insistindo até acertar. Não havia “Ctrl+C” nem “Ctrl+V”. Era na base do “se vira”: vá à biblioteca, procure, ache, copie à mão, resuma com suas palavras, desenhe, entenda.
Mas havia algo precioso: a turma da rua, do bairro, da escola. Havia coletividade. Nossos pais cobravam nosso desempenho, exigiam esforço e responsabilidade. Mas, entendiam aquela vivência social, também, fazia parte do aprendizado social.
O bullying já existia, não tinha esse nome pomposo, mas tínhamos que reagir, enfrentar. Não era fácil, mas seguimos em frente.
Não existia progressão automática. Ralávamos nas provas finais, nas segundas épocas — e, se não desse, era reprovação. E seguíamos, sem o luxo de transformar tudo em trauma.
Aprendemos, cedo, que o caminho do sucesso é calçado com pedras de fracasso. Caíamos, levantávamos, sacudíamos a poeira e dávamos a volta por cima — muitas vezes engolindo o choro, porque não havia tempo nem margem de segurança.
E talvez seja por isso que ainda seguimos de pé: não porque fomos poupados, mas porque aprendemos a continuar.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
O melhor dos iguais
Vivemos em um paradoxo estranho:
Somos empurrados a nos destacar o tempo todo, como se a vida fosse uma arena permanente de competição. Precisamos ser, ou aparentar, o melhor profissional, o mais eficiente, o mais inteligente, o mais atualizado, o mais resiliente, o mais mais... sempre em modo vitrine. Um eterno alfa em treinamento, insistentemente “expondo nosso valor” antes mesmo de existir prazer.
Porém, ao mesmo tempo, vivenciamos a exigência no sentido oposto:
não destoar demais. Pensar, consumir e reagir parecido para nos sentir pertencentes a um grupo. Porque quem sai muito da curva corre o risco de ser excluído da tribo, cancelado e isso é a morte digital. A exclusão hoje dói tanto quanto a fome do passado. E assim, pouco a pouco, vamos perdento nossa humanidade e nos transformando em
É um cabo de guerra interno: Seja único, mas só um pouco. Brilhe, mas sem ofuscar.
Essa guerra interna resulta num ser humano cansado, performático, ansioso, artificial…Que tenta, a todo custo, imprimir uma imagem que não harmoniza com sua identidade, pelo simples medo de não caber no seu grupo social.
Esse “gladiador moderno” AINDA não entendeu que a grande crise contemporânea não está na produtividade, mas na busca por autenticidade com pertencimento.
Como ser quem se é, sem virar solitário, como pertencer, sem ser um clone dos outros.
Pensar, hoje em dia, é quase é um ato revolucionário.




