Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 11 - Minha (fada) madrinha
Desde cedo, compreendi que Deus escolheu o melhor lugar para mim.
Vim a este mundo na casa onde minha mãe trabalhava como empregada doméstica. Para muita gente, isso poderia ser visto como uma sentença. Mas não foi.
Fui acolhido. E muito bem acolhido por todos daquela casa, onde tive uma infância e juventude de muito cuidado e afeto.
A dona da casa, a quem chamei a vida inteira de Dinda, me tratava como seu filho. O patriarca, a quem chamava de Tintinho, me tratava como um pai. Os filhos me acolheram como irmão, inclusive aquela que, além de irmã de coração, é minha madrinha, no sentido tradicional de uma segunda mãe. Assim, ganhei três mães. Três mulheres que Deus designou para serem meus anjos da guarda em carne e osso.
É claro que nem tudo poderia ser perfeito. Cheguei ali num momento de turbulência financeira. Por razões que não vêm ao caso, aquela família atravessava um período de declínio econômico. Mas posso garantir: nunca faltou amor.
Minhas três mães se desdobravam para cuidar de mim.
Aos oito anos, sofri um acidente com fogo que me deixou queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus no rosto. Os ferimentos foram tão graves que chegou a existir a possibilidade de amputar uma das minhas orelhas. Mas, graças aos cuidados que recebi, tudo acabou sendo um imenso susto.
As três se revezavam nos cuidados, numa rotina intensa e diária, para que eu me recuperasse e não mexesse nos curativos. Convivi com cicatrizes por muito tempo, mas nada que me causasse vergonha.
Mas aquilo passou. E eu também passei por aquilo.
Voltemos ao foco desta história.
Minha madrinha era professora e foi minha principal orientadora. Estimulava-me sempre a estudar. Dizia que a vida não era fácil, mas que, com esforço, muitos obstáculos poderiam ser superados, que o conhecimento era a melhor ferramenta para enfrentar as adversidades e me preparar para o mundo.
Acompanhava meu desenvolvimento escolar bem de perto. Era linha-dura. Aprendi com ela que não preciso ser o melhor, mas jamais ser medíocre. Isso me fez ser um devorador juvenil de livros.
Havia algo nela que me encanta até hoje: A capacidade de se doar. Todos os anos, separava, mês a mês, uma parte do seu salário para promover uma festa para as crianças de um hospital infantil no fim do ano.
Comprava bolo, doces, refrigerantes e brinquedos. Preparava cachorros-quentes e, perto do Natal, realizava a festa. Nenhuma criança ficava sem brinquedo. Aquela era a maneira dela de dizer a cada criança: "Não pare de sonhar".
Eu, ainda muito pequeno, ajudava como podia, distribuindo balas e doces. Assistia àquilo tudo como quem recebia um presente, uma lição de vida. Talvez tenha sido ali que comecei a entender algo que me acompanha até hoje: Levar felicidade aos outros também me faz feliz, e isso não precisa ser algo grandioso. Essa, sem dúvida, foi a maior lição que recebi da minha fada madrinha.
O tempo passou. Avancei nos estudos, fiz curso técnico, ingressei numa universidade pública para cursar Matemática e, depois, numa universidade privada, para estudar Estatística, e, depois, alguns pós graduação. Tudo isso sempre com o estímulo e a inspiração da minha madrinha. A cada conquista minha, ela comemorava como se fosse uma vitória dela.
Talvez seja por isso que, ao recordar minha história, eu tenha tanta certeza de que Deus escolheu as melhores pessoas e o melhor lugar para mim. Não porque ali a vida fosse fácil, mas porque foi naquela casa que recebi o amor, os valores e os ensinamentos necessários para construir uma vida digna.









