Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 5 - HR - Um presente da vida.
Entendo que a vida está o tempo todo nos dando presentes.
Os melhores são as pessoas que passam por nosso caminho. Algumas nos dão propósito, outras exemplos, e algumas nos deixam ensinamentos que carregamos para sempre.
Em 1995, fui trabalhar em uma empresa que me propunha um grande desafio.
Era preciso melhorar seus controles por meio de indicadores e sistemas informatizados. O problema é que o parque de equipamentos e a estrutura tecnológica eram bastante precários.
Era necessário um choque tecnológico.
Mas havia algo que eu ja sabia, mesmo antes de chegar ali: uma empresa não pode simplesmente parar até que tudo esteja pronto. Há fornecedores para pagar, serviços nas ruas, manutenção, salários...
Era preciso mudar sem deixar de caminhar. Trocar o pneu com o carro andando.
Foi nesse contexto que surgiu Hélio Ribeiro, um consultor independente, contratado para melhorar as rotinas de manutenção, propor inovações tecnológicas e aperfeiçoar processos.
Confesso que, no início, fiquei preocupado. Ele “alugava” muito o programador da empresa, e eu precisava daquele profissional para entender os sistemas existentes e desenhar os novos caminhos.
Mas não demorou para perceber que Hélio poderia ser muito mais do que um colega de trabalho.
Ele conhecia profundamente os sistemas de estoque, manutenção e compras. Conhecia seus gargalos e limitações. Mas, acima de tudo, conhecia as pessoas.
Hélio tinha a raca capacidade capacidade enxergar além do problema aparente. Percebia que muitas limitações não eram tecnológicas. Eram humanas.
Havia profissionais com enorme conhecimento empírico, que conheciam profundamente o que faziam, mas esbarravam nos medos, preconceitos e resistências às mudanças.
Cada setor parecia enxergar a própria importância com dificuldade de se perceber como parte de um todo. A empresa era, em muitos aspectos, um verdadeiro aquário de egos.
Hélio enxergava isso. E sabia mostrar por onde começar.
Sabia mudar processos sem fazer as pessoas se sentirem diminuídas, ameaçadas ou despojadas do poder que acreditavam ter.
Foi assim que descobri naquele consultor um grande parceiro para construirmos um Plano Diretor de Informática.
Um sertanejo, homem de família, que parecia viver em permanente estado de alegria. Era feliz com o que fazia e, principalmente, com a maneira como fazia.
Tinha uma vontade genuína de ajudar as pessoas a descobrirem novos caminhos.
Mas Hélio me deixou um ensinamento que ultrapassou todos os sistemas, processos e indicadores.
Um dia me disse:“Ninguém se decepciona com o outro. Se decepciona com a ideia que fez do outro.”
E completou, mais ou menos assim: “Então, não crie expectativas.”
Guardei aquilo. E, desde então, tento levar essa lição para a vida.
Não é fácil.
Mas a frase me ensinou muito sobre nossas decepções. Elas nem sempre nascem daquilo que as pessoas fizeram, mas daquilo que imaginamos que deveriam fazer.
No trabalho, fizemos uma verdadeira revolução tecnológica: Reduzimos os tempos de manutenção, melhoramos os processos de compra e passamos a oferecer à direção uma visão muito mais clara dos veículos e de toda a operação.
Em menos de dois anos, atingimos os objetivos que havíamos traçado. Saímos da idade da pedra lascada da informática para aparecer em revistas especializadas como uma das dez empresas que melhor utilizavam sistemas de informação na gestão dos negócios da área.
Mas, olhando para trás, percebo que o maior resultado daquele trabalho não foi tecnológico.
Foi humano.
Porque, no meio de sistemas, máquinas, processos e indicadores, encontrei um amigo que levo comigo até hoje.
A vida colocou Hélio no meu caminho quando eu precisava de um profissional e foi além: presenteou-me, sem que eu soubesse, com um amigo.
Talvez seja assim que a vida costuma nos presentear.
Às vezes, ela embrulha seus melhores presentes em situações que parecem apenas trabalho, obrigação ou desafio.
Só depois percebemos o que realmente recebemos.
Hélio foi um desses presentes.
E posso dizer, com gratidão, que muito do que conquistei naquele desafio só foi possível porque tive ao meu lado alguém que sabia muito de processos, mas que, acima de tudo, sabia muito de gente.









