Tem uma coisa muito interessante na arte da cutelaria: ela é feita de brutalidade e delicadeza, de força e paciência.
O cuteleiro pega o aço, coloca na forja e espera até que fique incandescente.
Retira do fogo, aplica o bórax e começa a malhar... Golpeia, aquece novamente, golpeia..
Sé é um trabalho com aço-damasco, o processo ainda tem a parte do corta, dobra, sobrepõe, aquece e forja novamente.Camada sobre camada, os diferentes aços vão se unindo até formar uma única barra, com um padrão também único.
Depois vem a modelagem do formato da lâmina. Voltam à cena a forja e a marreta. Golpe após golpe, o metal vai adquirindo a forma desejada.
Depois vem a retificação: corta, desbasta, lixa, corrige, até que, pouco a pouco, aparece a lâmina planejada.
Mas ainda não está pronta. É preciso submetê-la a um tratamento térmico, aquecendo e resfriando o aço de maneira controlada para que adquira resistência e dureza.
Após toda essa “brutalidade”, começa o trabalho delicado da afiação. Um pequeno erro pode comprometer tudo o que foi feito até ali.
Para finalizar, vem o preparo do cabo, com madeira, metal, osso, pedra ou chifre. O material é medido, cortado, perfurado, ajustado e polido até se encaixar perfeitamente à espiga da faca.
Sem o cabo, a faca estaria incompleta. Ele dá equilíbrio, segurança, conforto e beleza.
O cabo está para a faca assim como a moldura está para um quadro: não é a obra, mas está ali para valorizá-la.
Talvez criar um filho tenha alguma coisa a ver com tudo isso.
No meu caso, criar filhas.
Minha consciência de pai sempre me disse que eu precisava prepará-las para o mundo.
E o mundo não é gentil, muito menos justo o tempo todo.
Não devo viver a vida delas. Se as quero fortes para a vida, não posso poupá-las de suas quedas, dores ou decepções. Mas, devo prepará-las para quando elas acontecerem.
Talvez seja por isso que dizemos que o caráter se forja.
A vida é a forja. As dificuldades são o fogo. As experiências são os golpes. Os valores que ensinamos são as ferramentas...
E nós, pais e mães, somos um pouco como o cuteleiro.
Precisamos saber quando deixar nossos filhos enfrentarem o fogo e quando retirá-los dele.
Não é fácil. Nenhum pai gosta de ver um filho sofrer.
Às vezes queremos protegê-los de tudo, mas não estaremos sempre ao lado deles.
Chega o momento em que precisamos confiar no que ajudamos a construir.
Porque nosso trabalho não é fabricar a vida dos nossos filhos, é ajudá-los a construir a própria vida.
E talvez a nossa maior responsabilidade seja justamente essa: prepará-los para um mundo do qual sabemos que não poderemos protegê-los para sempre.
Como o cabo, precisamos dar segurança sem impedir o movimento.
Como a moldura, precisamos valorizar sem tentar ser a obra.
Porque nossas filhas não são nossas obras.
São pessoas únicas, com seus próprios sonhos, escolhas, caminhos, acertos e erros.
Nós apenas ajudamos a prepará-las para que possam percorrê-los.
E quando elas seguem adiante, enfrentando o mundo, fazendo suas escolhas e conquistando seus próprios espaços, percebemos que todo aquele fogo, aqueles golpes e aqueles momentos difíceis tiveram um propósito.
Não queríamos viver por elas. Queríamos apenas que fossem fortes o suficiente para viver.
E talvez essa seja uma das maiores provas de amor de um pai:
forjar o caráter sem aprisionar a liberdade.
O meu grande desafio, no fim de tudo, é fazê-las entender uma coisa:
tudo o que fiz foi por amor.









