sexta-feira, 2 de outubro de 2026

EP - 8 - Saudações aeronáuticas, tudo bem com vocês?

 


Cinema Falado


Mais uma História da Vida


EP- 8 - Saudações aeronáuticas, tudo bem com vocês?





Saudações aeronáuticas, tudo bem com vocês?

Não, Lito. Não está tudo bem.

Você partiu ontem.

E a partida de um amigo que nunca tive o prazer de conhecer, de conversar ou de abraçar me causou uma dor enorme.

Eu estava acostumado a esperar pelos domingos, pelo seu:

“Senta que lá vem história.”

E eu o convidava a entrar na minha sala para me contar histórias e curiosidades da aviação, explicar seus mistérios ou tentar entender os porquês dos acidentes.

“Turbulência não derruba avião.”

Pois é, Lito...

A turbulência causada pela sua partida me jogou no chão.

Eu sabia que sua doença era muito grave. Mas, mesmo assim, guardava aquela esperança teimosa de que o diagnóstico estivesse errado, que surgisse um novo tratamento, um medicamento milagroso, desses que chegam pelo delivery, entregues pelas asas de um anjo.

Mas não deu.

E talvez seja justamente agora que eu entenda melhor uma coisa que a vida vem me ensinando há muito tempo:

ninguém está isolado do mundo em que vive.

De formas e intensidades diferentes, as pessoas nos tocam.

Algumas através do exemplo.

Outras, pelos ensinamentos que levamos para a vida.

E há aquelas que simplesmente despertam alguma coisa dentro de nós.

Não é necessário que estejam fisicamente ao nosso lado.

Basta que suas palavras, suas obras ou seus feitos cheguem à nossa consciência.

Aí a mágica acontece.

Hoje, as telas são como janelas.

Por elas entram pessoas que nunca estiveram na nossa sala, nunca apertaram nossa mão, nunca ouviram nossa voz.

Mas, de alguma maneira, passam a fazer parte da nossa rotina.

Foi assim com você, Lito.

Minha identificação com Joselito Geraldo de Souza começou por algumas de suas paixões: aviões e música.

Mas havia mais. Você era nordestino.

Vinha de uma família humilde.

Era sedento por conhecimento e não poupou esforços para crescer na vida.

E tinha uma característica que, para mim, fazia toda a diferença: você não guardava o conhecimento para si. Você compartilhava com o prazer de uma apaixonado.

Pegava aquilo que conhecia profundamente e traduzia para quem, como eu, sabia pouco de aviação.

E fazia isso de uma maneira que nos fazia querer voltar no domingo seguinte.

“Senta que lá vem história.”

E lá vinha você.

Com uma história, uma explicação, uma curiosidade, uma pergunta ou uma resposta para alguma coisa que talvez nem soubéssemos que queríamos entender.

Você ensinava sem parecer que estava ensinando.

E, sem saber, foi ocupando um pequeno espaço na minha vida.

Um espaço que eu nunca havia lhe oferecido conscientemente.

Até que percebi que você já estava lá.

É curioso pensar nisso.

Eu nunca conversei com você.

Nunca apertei sua mão.

Nunca sentei diante de você para ouvir uma dessas histórias presencialmente.

E, mesmo assim, hoje sinto sua falta.

Talvez seja porque amizade não dependa apenas da convivência.

Talvez algumas pessoas entrem em nossa vida pela porta da frente, outras, entram pela tela de um dispositivo eletrônico.

E algumas, como você, entram pelas duas coisas mais poderosas que temos para aproximar pessoas que nunca se encontraram: a palavra e a emoção.

Você falava de aviões.

Eu ouvia histórias.

Mas, no caminho, você acabou falando também de coragem, conhecimento, trabalho, família, sonhos e da vontade de fazer melhor.

Por isso sua partida dói.

Não porque eu tenha perdido alguém que conhecia pessoalmente.

Dói porque perdi alguém que, sem saber, fazia parte dos meus domingos.

E talvez seja isso que você tenha sido para tanta gente:

um amigo que nunca conheceram pessoalmente, mas que conheceram de verdade.

Hoje não haverá “Senta que lá vem história”.

E isso dói.

Mas as histórias ficaram.

Ficaram os ensinamentos, as risadas, ficaram os aviões, as músicas e, principalmente, ficou aquilo que você conseguiu colocar dentro de nós.

Você costumava dizer que turbulência não derruba avião.

Hoje eu entendo que talvez a vida seja um pouco assim também.

Ela nos sacode.

Às vezes nos joga de um lado e para o outro.

Mas aquilo que construímos dentro de nós pode nos manter no ar.

Você construiu muita coisa dentro de muita gente.

Por isso, Lito, mesmo sem nunca termos conversado, permita-me chamá-lo de amigo.

Você ganhou esse lugar.

E agora que a sua última viagem começou, só me resta agradecer pelos muitos domingos em que você entrou pela minha tela e sentou na minha sala. E olha que não foram poucos, fora quase 15 anos de Saudações aeronáuticas, meu amigo.

Agora não ouvirei mais "Até o próximo voo"

Mas quero acreditar que, de alguma maneira, em algum lugar, ainda haverá uma história esperando para ser contada... e dessa vez será a tua história.

Bom voo, Lito.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

EP - 7 - Carta ao meu anjo da guarda — Dona Céu

 


Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 7 - Carta ao meu anjo da guarda.



Toda vez que vou escrever uma carta, lembro de como você iniciava as suas, principalmente as que escrevia para minha tia MissBete:

“Espero que estas linhas te encontrem com saúde e paz.”

Pois é, Dona Céu, o meu jeito não é tão formal. Aprendi a ser mais direto no que quero dizer.

Ceuzinha, estou escrevendo porque a saudade já não cabe no coração.

Quando você fez sua última viagem, há quinze anos, não deixou um vazio. Em cada canto, em cada momento, havia uma lembrança.

Confesso que, nos primeiros anos, a falta do teu bom-dia e da tua recepção no início da noite me dava um frio na alma.

Mas as pessoas e os livros me diziam: “Isso vai passar.”

Mentira. A saudade nunca passa, ela muda, porque tudo muda.

O tempo me ensinou a dar mais valor ao que vivemos juntos e ao que você me ensinou sobre a vida, do que o que sofremos e sofro.

O que de mais concreto ficou foi nosso gosto por cozinhar. Nossa maneira de querer bem aos outros, mas não saber fazer carinho — como você mesma dizia:

“Gosto muito de você, mas não sei ser pegajosa.”, até nisso somos parecidos, temos dificuldade para dizer "eu te amo"...

Você ficava ansiosa nos finais de semana, quando eu dizia:

“A cozinha é minha, nem venha pra cá!”

Pouco depois, lá estava você:

“Posso descascar os legumes pra te ajudar?”

E eu aceitava, com aquele gesto de quem dizia: “Vou te fazer cócegas.”

E suas viagens, sempre inesperadas.

“Filho, quero ir pro Ceará na semana que vem!”

— E quando volta?

— Não sei ainda.

Lembra, Céu, daquele telegrama da escola, pedindo para você ir comigo procurar a diretora com urgência?

No caminho, vez por outra, eu levava um puxão de orelha, acompanhado da frase:

“O que você fez? É melhor eu saber por você do que por outra pessoa.”

E eu respondia:

“Não tenho a menor ideia.”

Eu sempre fui um garoto danado, mas não era briguento nem destruidor...

Chegando lá, a diretora nos recebeu com o maior sorriso.

Eu havia tirado o primeiro lugar em Pernambuco no Exame de Admissão ao Ginásio e tinha um diploma a ser entregue. Imagina só, eu tirando a maior nota de um exame estadual...

A orelha sofreu, mas me deu essa história maravilhosa contigo.

Nesse tempo em que estamos longe, os momentos de sofrimento foram ficando enevoados, quase no esquecimento.

Hoje, as imagens que chegam à minha memória são as dos bons momentos que passamos juntos, como sua última ida ao Ceará.

Como você não podia mais viajar sozinha de ônibus, por recomendação do seu médico, fomos de carro.

1.600 quilômetros de estrada, muitos sorrisos com suas irmãs, a visita ao Padre Cícero...

Uma ótima lembrança para decorar a sala das minhas lembranças.

Mãe, você que me acompanha todos os dias, saiba que não tenho pressa, mas no futuro vamos nos encontrar.

Um beijo.



terça-feira, 15 de setembro de 2026

Entre a lembrança e o sonho - Spray de Ideias

 “Uma ideia nasce da colisão entre experiências vividas, fatos e palpites próprios e alheios.” (Steven Johnson)

Por isso, elas não surgem a todo momento.

O Spray de Ideias surgiu da necessidade de registrar temas que eu estudava e gostaria de discutir. Não queria que ficassem apenas na minha cabeça.

Naquela época, 2009, eu pesquisava muito sobre responsabilidade socioambiental, qualidade, sustentabilidade, gestão de equipes e outros assuntos relacionados.

Com o passar do tempo, passei a colocar nele coisas que me inspiravam, como provérbios, comportamento humano, política e reflexões sobre a vida.

Mas, com o tempo, ficou difícil manter a rotina. As publicações foram rareando, e fui perdendo o foco e a constância.

Mais recentemente, percebi que toda história de vida deixa marcas. Então, comecei a escrever sobre aquilo que me tocava.

Assim, o Spray de Ideias deixou de ser apenas um lugar onde falo sobre acontecimentos e se tornou um lugar onde revisito aquilo que os acontecimentos fizeram comigo.

Hoje, o passado é um tanto etéreo na nossa cabeça. Fica na estreita linha que separa a realidade do sonho, e as histórias, quando não são contadas, acabam morrendo.

Quando olhamos para trás, já não encontramos exatamente aquilo que aconteceu. Encontramos aquilo que restou em nós do que aconteceu.

Algumas lembranças permanecem nítidas. Outras vão perdendo contornos, dimensão e cor, misturando-se com sentimentos, interpretações, imaginação e até com aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido.

Talvez por isso as pessoas do nosso passado permaneçam tão presentes. Elas já não estão lá, em carne e osso, mas continuam em nós, nas lembranças.

E talvez seja justamente nesse lugar indefinido que moram algumas das pessoas e histórias que ainda vivem dentro da gente.

Este blog nasceu com um propósito: jogar no mundo a maneira como eu vejo as coisas.

Por isso, ele sempre teve um pé na rua, nos muros grafitados, na vida concreta. Como numa exposição de fotografias, onde cada imagem revela o mundo através da retina de quem a observa, mas também dos valores que carrega.

Hoje, o blog renasce como um livreto de pequenas crônicas, um caderno de poesias ou uma conversa numa mesa de café.

Tudo alinhavado pelas lembranças e pelos sentimentos.

É o presente olhando para o passado, sem saber exatamente onde termina a lembrança e começa o sonho.

Uma ideia, quando nasce, é quase uma imagem desfocada e incompleta. Vem acompanhada de sensações, expectativas, lembranças, pessoas, lugares, cheiros, vozes...

Depois, ao escrever, vamos revelando seus contornos e dando novos limites.

Algumas partes ficam nítidas; outras permanecem na penumbra.

E o interessante é que, com o tempo, a própria imagem muda.

Uma lembrança que hoje enxergamos de determinada maneira talvez, daqui a dez anos, tenha outra luz, outras cores, outros significados. .

Não necessariamente porque a realidade mudou, mas porque nós é que mudamos e passamos a vivê-la de outra maneira

Mudei. E talvez tenha mudado o suficiente para, hoje, não concordar com algumas coisas que escrevi no passado. Mas não as apagaria. Elas pertencem ao homem que fui, que pensava daquela maneira e que, naquele momento, acreditava no que escrevia.

Apagar seria apagar também uma parte da minha trajetória. Prefiro deixá-las ali, inclusive quando discordo de mim mesmo. Afinal, respeitar o contraditório também significa aceitar que, às vezes, o contraditório somos nós mesmos.

Talvez o Spray de Ideias seja simplesmente isso:

Um lugar onde o passado deixou algumas marcas, o presente continua escrevendo e o futuro ainda não sabe que histórias encontrará por aqui.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

EP - 6 - 25 anos depois

 

Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 6 - 25 anos depois.

Hoje é 11 de setembro de 2026.

Há 25 anos, entrava pela televisão de minha casa, a um dos maiores atentados terroristas da história.

Naquela manhã de 2001, 19 integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos e os transformaram em armas.

Dois deles foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.

Um terceiro atingiu o Pentágono, em Arlington, na Virgínia.

O quarto, o voo 93, caiu em um campo na Pensilvânia, depois que passageiros e tripulantes reagiram e tentaram retomar o controle da aeronave.

Às 8h46, o primeiro avião atingiu a Torre Norte. Inicialmente, muitos imaginaram tratar-se de um acidente com gás.

Equipes de reportagem começaram a chegar ao local para registrar o acontecimento e Dezessete minutos depois, às 9h03, foram testemunhas do segundo avião que atingiu a Torre Sul.

Foi naquele momento que o mundo percebeu que não estava diante de um acidente.

Nas Torres Gêmeas funcionavam escritórios de empresas financeiras, bancos, seguradoras, órgãos governamentais e companhias de comércio internacional.

Ali estava uma das maiores concentrações econômicas de Nova York.

Naquela manhã, milhares de pessoas estavam no complexo do World Trade Center. A maioria conseguiu deixar os edifícios, mas milhares não tiveram a mesma oportunidade.

Os aviões atingiram os andares superiores das torres, provocando incêndios que, combinados com os danos estruturais causados pelos impactos, acabaram levando ao colapso dos dois edifícios.

Em poucas horas, 2.977 pessoas haviam perdido a vida, homens, mulheres e crianças. Eram trabalhadores que haviam saído de casa para mais um dia de trabalho.

Eram passageiros que simplesmente estavam viajando. Eram bombeiros, policiais, socorristas e pessoas que correram na direção do perigo enquanto outras tentavam fugir dele.

… Eram vidas, com histórias e sonhos e famílias que esperavam por elas.

Por trás de cada número, havia uma história perdida.

Vinte e cinco anos se passaram e o mundo mudou.

Mas há coisas que o tempo não consegue modificar: A ausência de quem não voltou para casa, a lembrança de quem partiu sem imaginar que aquela seria a última manhã, A dor de quem esperou por alguém que nunca mais chegou.

Talvez seja por isso que lembrar seja tão importante.

Não para alimentar ódio.

Não para perpetuar a violência.

Mas para que a memória não permita que aquelas vidas sejam reduzidas a números.

Hoje, 25 anos depois, quando as imagens daquele dia voltam à nossa memória, talvez devêssemos olhar menos para os prédios que caíram e mais para as pessoas que estavam dentro deles.

Porque prédios podem ser reconstruídos.

Cidades podem ser recuperadas...

O mundo pode mudar....

Mas uma vida perdida não volta.

11 de setembro de 2001 não é apenas uma data da história.

É uma cicatriz na memória do mundo.

E algumas cicatrizes existem justamente para nos lembrar daquilo que nunca deveríamos repetir.

Lembrar é também uma forma de cuidar da memória.

E, enquanto alguém se lembrar deles, aquelas 2.977 pessoas continuarão, de alguma maneira, entre nós.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Nem sempre a saudade é uma dor



Tem vez que do nada a gente começa a rir

E quem está em volta da gente diz:
O que invadiu seu pensamentos agora

E que ali aflora vivo e com tanto ardor?

Lembranças daquilo que eu fiz

E deixaram marcas de tanto amor

que dá vontade de pedir bis

Pois, nem sempre a saudade é uma dor


Ela chega sem fazer festa nem barulho

E nos leva de volta ao passado

Ligando uma lembrança ao coração

E re-experimentando a mesma sensação

Reviver o que estava bem guardado,

com o preto e branco ganhando nova cor 

A alegria se revela num sorriso

Pois, nem sempre a saudade é uma dor


As lembranças estão ali guardadas

Todas doidinhas pra sair e vadear

Só esperam por nosso descuido

Por vezes tão cheias de verdades

Voltam à vida pra não ficar caladas

Que fazem do nosso coração um tambor 

batendo loucamente cheio de emoção

Pois, nem sempre a saudade é uma dor


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

EP - 5 - HR — Um presente da vida

Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 5 - HR - Um presente da vida.

Entendo que a vida está o tempo todo nos dando presentes.

Os melhores são as pessoas que passam por nosso caminho. Algumas nos dão propósito, outras exemplos, e algumas nos deixam ensinamentos que carregamos para sempre.

Em 1995, fui trabalhar em uma empresa que me propunha um grande desafio.

Era preciso melhorar seus controles por meio de indicadores e sistemas informatizados. O problema é que o parque de equipamentos e a estrutura tecnológica eram bastante precários.

Era necessário um choque tecnológico.

Mas havia algo que eu ja sabia, mesmo antes de chegar ali: uma empresa não pode simplesmente parar até que tudo esteja pronto. Há fornecedores para pagar, serviços nas ruas, manutenção, salários...

Era preciso mudar sem deixar de caminhar. Trocar o pneu com o carro andando.

Foi nesse contexto que surgiu Hélio Ribeiro, um consultor independente, contratado para melhorar as rotinas de manutenção, propor inovações tecnológicas e aperfeiçoar processos.

Confesso que, no início, fiquei preocupado. Ele “alugava” muito o programador da empresa, e eu precisava daquele profissional para entender os sistemas existentes e desenhar os novos caminhos.

Mas não demorou para perceber que Hélio poderia ser muito mais do que um colega de trabalho.

Ele conhecia profundamente os sistemas de estoque, manutenção e compras. Conhecia seus gargalos e limitações. Mas, acima de tudo, conhecia as pessoas.

Hélio tinha a raca capacidade capacidade enxergar além do problema aparente. Percebia que muitas limitações não eram tecnológicas. Eram humanas.

Havia profissionais com enorme conhecimento empírico, que conheciam profundamente o que faziam, mas esbarravam nos medos, preconceitos e resistências às mudanças.

Cada setor parecia enxergar a própria importância com dificuldade de se perceber como parte de um todo. A empresa era, em muitos aspectos, um verdadeiro aquário de egos.

Hélio enxergava isso. E sabia mostrar por onde começar.

Sabia mudar processos sem fazer as pessoas se sentirem diminuídas, ameaçadas ou despojadas do poder que acreditavam ter.

Foi assim que descobri naquele consultor um grande parceiro para construirmos um Plano Diretor de Informática.

Um sertanejo, homem de família, que parecia viver em permanente estado de alegria. Era feliz com o que fazia e, principalmente, com a maneira como fazia.

Tinha uma vontade genuína de ajudar as pessoas a descobrirem novos caminhos.

Mas Hélio me deixou um ensinamento que ultrapassou todos os sistemas, processos e indicadores.

Um dia me disse:“Ninguém se decepciona com o outro. Se decepciona com a ideia que fez do outro.”

E completou, mais ou menos assim: “Então, não crie expectativas.”

Guardei aquilo. E, desde então, tento levar essa lição para a vida.

Não é fácil.

Mas a frase me ensinou muito sobre nossas decepções. Elas nem sempre nascem daquilo que as pessoas fizeram, mas daquilo que imaginamos que deveriam fazer.

No trabalho, fizemos uma verdadeira revolução tecnológica: Reduzimos os tempos de manutenção, melhoramos os processos de compra e passamos a oferecer à direção uma visão muito mais clara dos veículos e de toda a operação.

Em menos de dois anos, atingimos os objetivos que havíamos traçado. Saímos da idade da pedra lascada da informática para aparecer em revistas especializadas como uma das dez empresas que melhor utilizavam sistemas de informação na gestão dos negócios da área.

Mas, olhando para trás, percebo que o maior resultado daquele trabalho não foi tecnológico.

Foi humano.

Porque, no meio de sistemas, máquinas, processos e indicadores, encontrei um amigo que levo comigo até hoje.

A vida colocou Hélio no meu caminho quando eu precisava de um profissional e foi além: presenteou-me, sem que eu soubesse, com um amigo.

Talvez seja assim que a vida costuma nos presentear.

Às vezes, ela embrulha seus melhores presentes em situações que parecem apenas trabalho, obrigação ou desafio.

Só depois percebemos o que realmente recebemos.

Hélio foi um desses presentes.

E posso dizer, com gratidão, que muito do que conquistei naquele desafio só foi possível porque tive ao meu lado alguém que sabia muito de processos, mas que, acima de tudo, sabia muito de gente.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Forjando o caráter


Tem uma coisa muito interessante na arte da cutelaria: ela é feita de brutalidade e delicadeza, de força e paciência.

O cuteleiro pega o aço, coloca na forja e espera até que fique incandescente.

Retira do fogo, aplica o bórax e começa a malhar... Golpeia, aquece novamente, golpeia.. 

Sé é um trabalho com aço-damasco, o processo ainda tem a parte do corta, dobra, sobrepõe, aquece e forja novamente.

Camada sobre camada, os diferentes aços vão se unindo até formar uma única barra, com um padrão também único.

Depois vem a modelagem do formato da lâmina. Voltam à cena a forja e a marreta. Golpe após golpe, o metal vai adquirindo a forma desejada.

Depois vem a retificação: corta, desbasta, lixa, corrige, até que, pouco a pouco, aparece a lâmina planejada.

Mas ainda não está pronta. É preciso submetê-la a um tratamento térmico, aquecendo e resfriando o aço de maneira controlada para que adquira resistência e dureza.

Após toda essa “brutalidade”, começa o trabalho delicado da afiação. Um pequeno erro pode comprometer tudo o que foi feito até ali.

Para finalizar, vem o preparo do cabo, com madeira, metal, osso, pedra ou chifre. O material é medido, cortado, perfurado, ajustado e polido até se encaixar perfeitamente à espiga da faca.

Sem o cabo, a faca estaria incompleta. Ele dá equilíbrio, segurança, conforto e beleza.

O cabo está para a faca assim como a moldura está para um quadro: não é a obra, mas está ali para valorizá-la.

Talvez criar um filho tenha alguma coisa a ver com tudo isso.

No meu caso, criar filhas.

Minha consciência de pai sempre me disse que eu precisava prepará-las para o mundo.

E o mundo não é gentil, muito menos justo o tempo todo.

Não devo viver a vida delas. Se as quero fortes para a vida, não posso poupá-las de suas quedas, dores ou decepções. Mas, devo prepará-las para quando elas acontecerem.

Talvez seja por isso que dizemos que o caráter se forja.

A vida é a forja. As dificuldades são o fogo. As experiências são os golpes. Os valores que ensinamos são as ferramentas...

E nós, pais e mães, somos um pouco como o cuteleiro.

Precisamos saber quando deixar nossos filhos enfrentarem o fogo e quando retirá-los dele.

Não é fácil. Nenhum pai gosta de ver um filho sofrer.

Às vezes queremos protegê-los de tudo, mas não estaremos sempre ao lado deles.

Chega o momento em que precisamos confiar no que ajudamos a construir.

Porque nosso trabalho não é fabricar a vida dos nossos filhos, é ajudá-los a construir a própria vida.

E talvez a nossa maior responsabilidade seja justamente essa: prepará-los para um mundo do qual sabemos que não poderemos protegê-los para sempre.

Como o cabo, precisamos dar segurança sem impedir o movimento.

Como a moldura, precisamos valorizar sem tentar ser a obra.

Porque nossas filhas não são nossas obras.

São pessoas únicas, com seus próprios sonhos, escolhas, caminhos, acertos e erros.

Nós apenas ajudamos a prepará-las para que possam percorrê-los.

E quando elas seguem adiante, enfrentando o mundo, fazendo suas escolhas e conquistando seus próprios espaços, percebemos que todo aquele fogo, aqueles golpes e aqueles momentos difíceis tiveram um propósito.

Não queríamos viver por elas. Queríamos apenas que fossem fortes o suficiente para viver.

E talvez essa seja uma das maiores provas de amor de um pai:

forjar o caráter sem aprisionar a liberdade.

O meu grande desafio, no fim de tudo, é fazê-las entender uma coisa:

tudo o que fiz foi por amor.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A esperança

 

No início da década de 2000, fui convidado a trabalhar numa empresa que cuidava de sistemas hospitalares. Minha função, entre outras, era treinar a equipe de atendentes e coordenar as marcações de consultas dentro de hospitais públicos.

Chegamos a marcar mais de 25 mil consultas por mês. Esse número pode parecer grande, mas era pequeno diante da demanda.

Esse hiato entre o possível e o necessário gerava a pior parte de trabalhar ali, dizer "Não podemos marcar sua consulta. As agendas estão lotadas."

E fazer isso diante de pacientes carentes, alguns com casos sérios que o tempo poderia agravar, era especialmente difícil. Vi muita gente sofrida sair dali desesperada. Isso mesmo: sem esperança.

Aquilo batia diretamente no meu lado humano a tal ponto que havia dias em que eu saía do hospital e caminhava até uma pequena capela que ficava ali perto.

Não ia rezar… Ia chorar... Chorar pela minha impotência diante daquelas situações. Ia até lá para me recompor. Depois, voltava.

Foi ali que descobri que ter humanidade não é uma fragilidade que precisamos esconder. Muito pelo contrário. Era justamente aquilo que me permitia continuar fazendo aquele trabalho: tratar as pessoas com o respeito que mereciam e acolher suas dores com dignidade.

Naquele período, a vida me colocou diante de seus extremos.

Fui acometido por uma grave doença. Vi o nascimento da minha filha mais nova. Convivia diariamente o sofrimento dos pacientes que chegavam ao hospital. Minha primeira filha escolheu ir morar com a mãe. E, pela televisão, assisti ao atentado das Torres Gêmeas - mortes em massa, cuja dimensão parecia alcançar o mundo inteiro.

Vivi medo, chegada, partida, limitações e insegurança, tudo junto e misturado.

Hoje penso que havia um fio  ligando tudo aquilo. A esperança.

Porque talvez seja ela que nos faz continuar quando a vida começa, quando a dor chega e até quando a morte parece ter vencido.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Todo mundo quer ser feliz....

 


Todo mundo quer ser feliz.

Mas o que é, afinal, essa felicidade?

Penso que a felididade não seja uma meta a alcançar, mas aqueles instantes em que sentimos que nada falta e nada sobra.

Para alguns, ela chega como uma onda: intensa, luminosa e passageira. Para outros, está mais no caminho que na chegada — nas paradas, nas contemplações, nos encontros, desencontros e reencontros.

A felicidade também tem uma matemática curiosa: não se divide, multiplica-se. Quanto mais compartilhamos, mais ela parece crescer.

Mas felicidade não é uma constante. É movimento. Vem em ondas.

Há quem se desespere na calmaria e quem tente segurar a onda quando ela chega. Talvez ambos estejam procurando controlar aquilo que não pode ser controlado.

A vida é como o mar. Há momentos de espera e momentos de plenitude. Na calmaria, podemos ajustar a postura, preparar a remada e esperar. Quando a onda chega, resta estar presente para vivê-la.

Ela vai passar. Sempre passa.

Mas isso não diminui o que aconteceu.

Talvez a felicidade não esteja em encontrar um mar sem ondas, nem em fazer a onda durar para sempre.

Talvez esteja em aprender a "surfar".

E, quando o mar novamente se acalmar, simplesmente preparar-se para a próxima.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EP - 4 - Manuzé

 

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Mais uma História da Vida

EP- 4 — Manuzé.

Há pessoas que, de tão únicas, parecem não ter nascido. Parecem ter sido inventadas e Manuzé era uma delas.

Seu nome já anunciava essa singularidade. Era para ter sido Roberto. Os pais mudaram para Manoel José. Em casa era Betinho. Para nós, simplesmente Manuzé.

Nasceu para a arte, escrevia como poucos. Ainda adolescente já fazia poesia. Depois vieram o teatro, onde escrevia, dirigia e atuava; a pintura, a música e tudo aquilo que transformasse emoção em expressão. Era apaixonado por Gal Costa, pelas palavras e pela beleza escondida nas coisas simples.

Mas seu maior talento, sem sombra de dúvidas, era saber ouvir,  acolher sem pressa. E, quando finalmente dizia alguma coisa, quase sempre encontrava exatamente a palavra de que o outro precisava.

Talvez por isso tenha colecionado tantos amigos.

Tive o privilégio de dividir com ele algumas composições. Chegava com um pedaço de papel e perguntava, quase sem pretensão: — Será que isso serve para alguma coisa?

Então lia:

"Tudo o que eu quero vem de mim, mas não sou o que penso, pois quando digo não, queria dizer sim."

E, de repente, uma música começava a nascer.

Assim escreveu livros de poesia, peças de teatro e participou da fundação do Movimento dos Escritores Independentes. Mas a definição de que mais gostava era simples:

"Agitador Cultural."

Agitava ideias, pessoas e coragem.

Também gostava de me desafiar. Um dia me colocou para servir de dublê de ator. Noutro, convenceu-me a fazer um show de voz e violão completamente no improviso.

Sua explicação era inesquecível: "É bom viver no improviso. A vida não faz ensaio."

Talvez essa frase explique melhor do que qualquer outra o homem que ele foi.

Porque, por trás da alegria quase permanente, existia uma tristeza que poucos conheciam.

Depois veio o HIV, que levou a perda parcial da visão. 

Para alguém que enxergava o mundo através das cores, aquilo foi uma crueldade.

Mas houve uma dor ainda maior, viver o abandono.

Manuzé passou a vida aproximando pessoas — ouvindo, acolhendo, criando pontes por meio da arte. No entanto, justamente quando mais precisava de companhia, muitos desapareceram.

No seu último aniversário, havia apenas quatro amigos ao seu lado.

Nunca consegui esquecer essa imagem, Porque, às vezes, a solidão machuca muito mais do que a própria doença.

Ele partiu alguns meses depois.

Só soube quando tudo já havia acontecido.

Durante muito tempo pensei que havia perdido a oportunidade de me despedir, mas, hoje acredito que não.

Nossa despedida aconteceu ao longo da vida, em cada música que compusemos, em cada conversa sem hora para terminar, em cada improviso que ele transformava em aventura.

Manuzé nunca me ensinou a escrever poesia. O que ele me ensinou foi muito maior: mostrou que a vida também pode ser uma obra de arte
— imperfeita, improvisada e, justamente por isso, profundamente humana.

Algumas pessoas desaparecem do mundo quando partem, outras continuam acontecendo dentro daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.

O Manuzé é uma delas.