
Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 10 - Um anjo de 4 patas
Papai do Céu nos deu um presente.
Confesso que não era o que eu queria, inclusive porque não era fã de gatos. Sempre os vi de forma diferente, talvez com olhos de quem ama cachorros — por esses, sim, sou apaixonado.
Essa bichinha estava jogada no estacionamento do prédio onde moramos, miando para quem passasse por perto. Contudo, estava muito assustada e desconfiada.
Passados dois dias, numa sexta-feira, estávamos voltando de algum lugar, à noite, sob chuva intensa. Ao descer do carro, escutamos aquele miado forte…
Minha filha pediu: — Painho, vamos levar ela pra casa… Eu relutei. Como disse, não gostava de gatos.
Ela insistiu, e eu afirmei: — Não. Eu não quero bicho em casa. Isso prende a gente, dificulta um monte de coisas.
Aí veio o choro: — Mas, painho, ela está sofrendo, com fome, frio, toda molhada…
Insistí no “Não”, seco e desumano.
Aí veio a voz definitiva da minha esposa: — Vai, André. É só por hoje. A Lú aproveitou e fez coro: — É, pai. Só hoje…
Chegando em casa, pegamos uma toalha e o secador para secá-la. Em seguida, fui ver o que poderíamos dar a ela para matar a fome. Não tínhamos ração, afinal, não criávamos um animal há muito tempo. Então improvisamos uma salsicha… Ela comeu só um pouco. Parecia um animal de casa, acostumado com ração seca, mas comeu. Arrumamos um cantinho com outra toalha seca para servir de cama.
Minha esposa já havia me dito antes que queria um gatinho; a partir dali, sabia que era voto vencido e não adiantaria dizer nada em contrário, pois ela já estava dentro de casa. A danada entrou na nossa casa para fazer parte do clã. No dia seguinte, saí para comprar tudo o que faltava: areia higiênica, ração e potes para água e comida.
A criaturinha era absolutamente assustada e medrosa, como se tivesse sofrido de tudo nas mãos de outras pessoas, tinha pavor de vassoura. Não queria proximidade conosco. Mas sabíamos que, aos poucos, conseguiríamos trazê-la para o convívio.
Aos poucos, ela foi se aproximando e aceitando nosso carinho. Não foi rápido. Levamos mais de um ano para que ela chegasse perto de nós em busca de um afago. Abraço e colo, nem pensar… Ela lutava para sair de todo jeito.
Mas era uma gatinha adorável — olha eu mudando de opinião! Às vezes, quando eu chegava do trabalho e me deitava, ela vinha e colocava a cabeça sobre a minha mão para que eu a acariciasse. Quando se cansava do carinho, ia para as minhas pernas e lá dormia um sono profundo. E eu ficava ali, completamente dominado, sem coragem de me mexer só para não acordá-la.
Um pequeno detalhe, esse anjinho de quatro patas era enorme. Do focinho a ponta do rabo, media seus 86 cm e pesava sete quilos e oitocentos gramas, de puro amor.
Ela tratava cada um de nós de forma diferente, de um jeito bem único e pessoal. Viveu entre nós por 14 anos, nos ensinando que o amor de um bicho não se impõe, se conquista e, quando percebemos, quem ganha um lar de verdade somos nós.







