quarta-feira, 8 de abril de 2026

Seminovos

Nós, os seminovos, que tivemos a coragem — ou a insanidade — de nascer nas décadas de 1950 e 1960, não fomos feitos. Fomos forjados. Isso mesmo: uma mistura de têmpera e malhação.

Nascemos no berço de uma civilização em ebulição. Vivemos as viagens espaciais, a conquista da Lua, o primeiro boom da computação. As famílias atravessavam a transição da tradição para a modernidade. As notícias já não vinham apenas dos jornais e revistas; chegavam pela televisão, invadiam nossas casas sem pedir licença.

Na infância, não encontrávamos respostas prontas — precisávamos construí-las, muitas vezes errando, repetindo, insistindo até acertar. Não havia “Ctrl+C” nem “Ctrl+V”. Era na base do “se vira”: vá à biblioteca, procure, ache, copie à mão, resuma com suas palavras, desenhe, entenda.

Mas havia algo precioso: a turma da rua, do bairro, da escola. Havia coletividade. Nossos pais cobravam nosso desempenho, exigiam esforço e responsabilidade. Mas, entendiam aquela vivência social, também, fazia parte do aprendizado social. 

O bullying já existia, não tinha esse nome pomposo, mas tínhamos que reagir, enfrentar. Não era fácil, mas seguimos em frente.

Não existia progressão automática. Ralávamos nas provas finais, nas segundas épocas — e, se não desse, era reprovação. E seguíamos, sem o luxo de transformar tudo em trauma.

Aprendemos, cedo, que o caminho do sucesso é calçado com pedras de fracasso. Caíamos, levantávamos, sacudíamos a poeira e dávamos a volta por cima — muitas vezes engolindo o choro, porque não havia tempo nem margem de segurança.

E talvez seja por isso que ainda seguimos de pé: não porque fomos poupados, mas porque aprendemos a continuar.


Nenhum comentário:

Postar um comentário