terça-feira, 22 de setembro de 2026

EP - 7 - Carta ao meu anjo da guarda — Dona Céu

 


Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 7 - Carta ao meu anjo da guarda.



Toda vez que vou escrever uma carta, lembro de como você iniciava as suas, principalmente as que escrevia para minha tia MissBete:

“Espero que estas linhas te encontrem com saúde e paz.”

Pois é, Dona Céu, o meu jeito não é tão formal. Aprendi a ser mais direto no que quero dizer.

Ceuzinha, estou escrevendo porque a saudade já não cabe no coração.

Quando você fez sua última viagem, há quinze anos, não deixou um vazio. Em cada canto, em cada momento, havia uma lembrança.

Confesso que, nos primeiros anos, a falta do teu bom-dia e da tua recepção no início da noite me dava um frio na alma.

Mas as pessoas e os livros me diziam: “Isso vai passar.”

Mentira. A saudade nunca passa, ela muda, porque tudo muda.

O tempo me ensinou a dar mais valor ao que vivemos juntos e ao que você me ensinou sobre a vida, do que o que sofremos e sofro.

O que de mais concreto ficou foi nosso gosto por cozinhar. Nossa maneira de querer bem aos outros, mas não saber fazer carinho — como você mesma dizia:

“Gosto muito de você, mas não sei ser pegajosa.”, até nisso somos parecidos, temos dificuldade para dizer "eu te amo"...

Você ficava ansiosa nos finais de semana, quando eu dizia:

“A cozinha é minha, nem venha pra cá!”

Pouco depois, lá estava você:

“Posso descascar os legumes pra te ajudar?”

E eu aceitava, com aquele gesto de quem dizia: “Vou te fazer cócegas.”

E suas viagens, sempre inesperadas.

“Filho, quero ir pro Ceará na semana que vem!”

— E quando volta?

— Não sei ainda.

Lembra, Céu, daquele telegrama da escola, pedindo para você ir comigo procurar a diretora com urgência?

No caminho, vez por outra, eu levava um puxão de orelha, acompanhado da frase:

“O que você fez? É melhor eu saber por você do que por outra pessoa.”

E eu respondia:

“Não tenho a menor ideia.”

Eu sempre fui um garoto danado, mas não era briguento nem destruidor...

Chegando lá, a diretora nos recebeu com o maior sorriso.

Eu havia tirado o primeiro lugar em Pernambuco no Exame de Admissão ao Ginásio e tinha um diploma a ser entregue. Imagina só, eu tirando a maior nota de um exame estadual...

A orelha sofreu, mas me deu essa história maravilhosa contigo.

Nesse tempo em que estamos longe, os momentos de sofrimento foram ficando enevoados, quase no esquecimento.

Hoje, as imagens que chegam à minha memória são as dos bons momentos que passamos juntos, como sua última ida ao Ceará.

Como você não podia mais viajar sozinha de ônibus, por recomendação do seu médico, fomos de carro.

1.600 quilômetros de estrada, muitos sorrisos com suas irmãs, a visita ao Padre Cícero...

Uma ótima lembrança para decorar a sala das minhas lembranças.

Mãe, você que me acompanha todos os dias, saiba que não tenho pressa.

Mas, em breve, vamos nos encontrar.

Um beijo.



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