

Toda vez que vou escrever uma carta, lembro de como você iniciava as suas, principalmente as que escrevia para minha tia MissBete:
“Espero que estas linhas te encontrem com saúde e paz.”
Pois é, Dona Céu, o meu jeito não é tão formal. Aprendi a ser mais direto no que quero dizer.
Ceuzinha, estou escrevendo porque a saudade já não cabe no coração.
Quando você fez sua última viagem, há quinze anos, não deixou um vazio. Em cada canto, em cada momento, havia uma lembrança.
Confesso que, nos primeiros anos, a falta do teu bom-dia e da tua recepção no início da noite me dava um frio na alma.
Mas as pessoas e os livros me diziam: “Isso vai passar.”
Mentira. A saudade nunca passa, ela muda, porque tudo muda.
O tempo me ensinou a dar mais valor ao que vivemos juntos e ao que você me ensinou sobre a vida, do que o que sofremos e sofro.
O que de mais concreto ficou foi nosso gosto por cozinhar. Nossa maneira de querer bem aos outros, mas não saber fazer carinho — como você mesma dizia:
“Gosto muito de você, mas não sei ser pegajosa.”, até nisso somos parecidos, temos dificuldade para dizer "eu te amo"...
Você ficava ansiosa nos finais de semana, quando eu dizia:
“A cozinha é minha, nem venha pra cá!”
Pouco depois, lá estava você:
“Posso descascar os legumes pra te ajudar?”
E eu aceitava, com aquele gesto de quem dizia: “Vou te fazer cócegas.”
E suas viagens, sempre inesperadas.
“Filho, quero ir pro Ceará na semana que vem!”
— E quando volta?
— Não sei ainda.
Lembra, Céu, daquele telegrama da escola, pedindo para você ir comigo procurar a diretora com urgência?
No caminho, vez por outra, eu levava um puxão de orelha, acompanhado da frase:
“O que você fez? É melhor eu saber por você do que por outra pessoa.”
E eu respondia:
“Não tenho a menor ideia.”
Eu sempre fui um garoto danado, mas não era briguento nem destruidor...
Chegando lá, a diretora nos recebeu com o maior sorriso.
Eu havia tirado o primeiro lugar em Pernambuco no Exame de Admissão ao Ginásio e tinha um diploma a ser entregue. Imagina só, eu tirando a maior nota de um exame estadual...
A orelha sofreu, mas me deu essa história maravilhosa contigo.
Nesse tempo em que estamos longe, os momentos de sofrimento foram ficando enevoados, quase no esquecimento.
Hoje, as imagens que chegam à minha memória são as dos bons momentos que passamos juntos, como sua última ida ao Ceará.
Como você não podia mais viajar sozinha de ônibus, por recomendação do seu médico, fomos de carro.
1.600 quilômetros de estrada, muitos sorrisos com suas irmãs, a visita ao Padre Cícero...
Uma ótima lembrança para decorar a sala das minhas lembranças.
Mãe, você que me acompanha todos os dias, saiba que não tenho pressa, mas no futuro vamos nos encontrar.
Um beijo.
“Uma ideia nasce da colisão entre experiências vividas, fatos e palpites próprios e alheios.” (Steven Johnson)
Por isso, elas não surgem a todo momento.
O Spray de Ideias surgiu da necessidade de registrar temas que eu estudava e gostaria de discutir. Não queria que ficassem apenas na minha cabeça.
Com o passar do tempo, passei a colocar nele coisas que me inspiravam, como provérbios, comportamento humano, política e reflexões sobre a vida.
Mas, com o tempo, ficou difícil manter a rotina. As publicações foram rareando, e fui perdendo o foco e a constância.
Mais recentemente, percebi que toda história de vida deixa marcas. Então, comecei a escrever sobre aquilo que me tocava.
Assim, o Spray de Ideias deixou de ser apenas um lugar onde falo sobre acontecimentos e se tornou um lugar onde revisito aquilo que os acontecimentos fizeram comigo.
Hoje, o passado é um tanto etéreo na nossa cabeça. Fica na estreita linha que separa a realidade do sonho, e as histórias, quando não são contadas, acabam morrendo.
Quando olhamos para trás, já não encontramos exatamente aquilo que aconteceu. Encontramos aquilo que restou em nós do que aconteceu.
Algumas lembranças permanecem nítidas. Outras vão perdendo contornos, dimensão e cor, misturando-se com sentimentos, interpretações, imaginação e até com aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido.
Talvez por isso as pessoas do nosso passado permaneçam tão presentes. Elas já não estão lá, em carne e osso, mas continuam em nós, nas lembranças.
E talvez seja justamente nesse lugar indefinido que moram algumas das pessoas e histórias que ainda vivem dentro da gente.
Este blog nasceu com um propósito: jogar no mundo a maneira como eu vejo as coisas.
Por isso, ele sempre teve um pé na rua, nos muros grafitados, na vida concreta. Como numa exposição de fotografias, onde cada imagem revela o mundo através da retina de quem a observa, mas também dos valores que carrega.
Hoje, o blog renasce como um livreto de pequenas crônicas, um caderno de poesias ou uma conversa numa mesa de café.
É o presente olhando para o passado, sem saber exatamente onde termina a lembrança e começa o sonho.
Uma ideia, quando nasce, é quase uma imagem desfocada e incompleta. Vem acompanhada de sensações, expectativas, lembranças, pessoas, lugares, cheiros, vozes...
Depois, ao escrever, vamos revelando seus contornos e dando novos limites.
Algumas partes ficam nítidas; outras permanecem na penumbra.
E o interessante é que, com o tempo, a própria imagem muda.
Uma lembrança que hoje enxergamos de determinada maneira talvez, daqui a dez anos, tenha outra luz, outras cores, outros significados. .
Não necessariamente porque a realidade mudou, mas porque nós é que mudamos e passamos a vivê-la de outra maneira
Mudei. E talvez tenha mudado o suficiente para, hoje, não concordar com algumas coisas que escrevi no passado. Mas não as apagaria. Elas pertencem ao homem que fui, que pensava daquela maneira e que, naquele momento, acreditava no que escrevia.
Apagar seria apagar também uma parte da minha trajetória. Prefiro deixá-las ali, inclusive quando discordo de mim mesmo. Afinal, respeitar o contraditório também significa aceitar que, às vezes, o contraditório somos nós mesmos.
Talvez o Spray de Ideias seja simplesmente isso:
Um lugar onde o passado deixou algumas marcas, o presente continua escrevendo e o futuro ainda não sabe que histórias encontrará por aqui.
Há 25 anos, entrava pela televisão de minha casa, a um dos maiores atentados terroristas da história.
Naquela manhã de 2001, 19 integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos e os transformaram em armas.
Dois deles foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
Um terceiro atingiu o Pentágono, em Arlington, na Virgínia.
O quarto, o voo 93, caiu em um campo na Pensilvânia, depois que passageiros e tripulantes reagiram e tentaram retomar o controle da aeronave.
Às 8h46, o primeiro avião atingiu a Torre Norte. Inicialmente, muitos imaginaram tratar-se de um acidente com gás.
Equipes de reportagem começaram a chegar ao local para registrar o acontecimento e Dezessete minutos depois, às 9h03, foram testemunhas do segundo avião que atingiu a Torre Sul.
Foi naquele momento que o mundo percebeu que não estava diante de um acidente.
Nas Torres Gêmeas funcionavam escritórios de empresas financeiras, bancos, seguradoras, órgãos governamentais e companhias de comércio internacional.
Ali estava uma das maiores concentrações econômicas de Nova York.
Naquela manhã, milhares de pessoas estavam no complexo do World Trade Center. A maioria conseguiu deixar os edifícios, mas milhares não tiveram a mesma oportunidade.
Os aviões atingiram os andares superiores das torres, provocando incêndios que, combinados com os danos estruturais causados pelos impactos, acabaram levando ao colapso dos dois edifícios.
Em poucas horas, 2.977 pessoas haviam perdido a vida, homens, mulheres e crianças. Eram trabalhadores que haviam saído de casa para mais um dia de trabalho.
Eram passageiros que simplesmente estavam viajando. Eram bombeiros, policiais, socorristas e pessoas que correram na direção do perigo enquanto outras tentavam fugir dele.
… Eram vidas, com histórias e sonhos e famílias que esperavam por elas.
Por trás de cada número, havia uma história perdida.
Vinte e cinco anos se passaram e o mundo mudou.
Mas há coisas que o tempo não consegue modificar: A ausência de quem não voltou para casa, a lembrança de quem partiu sem imaginar que aquela seria a última manhã, A dor de quem esperou por alguém que nunca mais chegou.
Talvez seja por isso que lembrar seja tão importante.
Não para alimentar ódio.
Não para perpetuar a violência.
Mas para que a memória não permita que aquelas vidas sejam reduzidas a números.
Hoje, 25 anos depois, quando as imagens daquele dia voltam à nossa memória, talvez devêssemos olhar menos para os prédios que caíram e mais para as pessoas que estavam dentro deles.
Porque prédios podem ser reconstruídos.
Cidades podem ser recuperadas...
O mundo pode mudar....
Mas uma vida perdida não volta.
11 de setembro de 2001 não é apenas uma data da história.
É uma cicatriz na memória do mundo.
E algumas cicatrizes existem justamente para nos lembrar daquilo que nunca deveríamos repetir.
Lembrar é também uma forma de cuidar da memória.
E, enquanto alguém se lembrar deles, aquelas 2.977 pessoas continuarão, de alguma maneira, entre nós.
Tem vez que do nada a gente começa a rir
E quem está em volta da gente diz:E que ali aflora vivo e com tanto ardor?
Lembranças daquilo que eu fiz
E deixaram marcas de tanto amor
que dá vontade de pedir bis
Pois, nem sempre a saudade é uma dor
Ela chega sem fazer festa nem barulho
E nos leva de volta ao passado
Ligando uma lembrança ao coração
E re-experimentando a mesma sensação
Reviver o que estava bem guardado,
com o preto e branco ganhando nova cor
A alegria se revela num sorriso
Pois, nem sempre a saudade é uma dor
As lembranças estão ali guardadas
Todas doidinhas pra sair e vadear
Só esperam por nosso descuido
Por vezes tão cheias de verdades
Voltam à vida pra não ficar caladas
Que fazem do nosso coração um tambor
batendo loucamente cheio de emoção
Pois, nem sempre a saudade é uma dor
Os melhores são as pessoas que passam por nosso caminho. Algumas nos dão propósito, outras exemplos, e algumas nos deixam ensinamentos que carregamos para sempre.
Em 1995, fui trabalhar em uma empresa que me propunha um grande desafio.
Era preciso melhorar seus controles por meio de indicadores e sistemas informatizados. O problema é que o parque de equipamentos e a estrutura tecnológica eram bastante precários.
Era necessário um choque tecnológico.
Mas havia algo que eu ja sabia, mesmo antes de chegar ali: uma empresa não pode simplesmente parar até que tudo esteja pronto. Há fornecedores para pagar, serviços nas ruas, manutenção, salários...
Era preciso mudar sem deixar de caminhar. Trocar o pneu com o carro andando.
Foi nesse contexto que surgiu Hélio Ribeiro, um consultor independente, contratado para melhorar as rotinas de manutenção, propor inovações tecnológicas e aperfeiçoar processos.
Confesso que, no início, fiquei preocupado. Ele “alugava” muito o programador da empresa, e eu precisava daquele profissional para entender os sistemas existentes e desenhar os novos caminhos.
Mas não demorou para perceber que Hélio poderia ser muito mais do que um colega de trabalho.
Ele conhecia profundamente os sistemas de estoque, manutenção e compras. Conhecia seus gargalos e limitações. Mas, acima de tudo, conhecia as pessoas.
Hélio tinha a raca capacidade capacidade enxergar além do problema aparente. Percebia que muitas limitações não eram tecnológicas. Eram humanas.
Havia profissionais com enorme conhecimento empírico, que conheciam profundamente o que faziam, mas esbarravam nos medos, preconceitos e resistências às mudanças.
Cada setor parecia enxergar a própria importância com dificuldade de se perceber como parte de um todo. A empresa era, em muitos aspectos, um verdadeiro aquário de egos.
Hélio enxergava isso. E sabia mostrar por onde começar.
Sabia mudar processos sem fazer as pessoas se sentirem diminuídas, ameaçadas ou despojadas do poder que acreditavam ter.
Foi assim que descobri naquele consultor um grande parceiro para construirmos um Plano Diretor de Informática.
Um sertanejo, homem de família, que parecia viver em permanente estado de alegria. Era feliz com o que fazia e, principalmente, com a maneira como fazia.
Tinha uma vontade genuína de ajudar as pessoas a descobrirem novos caminhos.
Mas Hélio me deixou um ensinamento que ultrapassou todos os sistemas, processos e indicadores.
Um dia me disse:“Ninguém se decepciona com o outro. Se decepciona com a ideia que fez do outro.”
E completou, mais ou menos assim: “Então, não crie expectativas.”
Guardei aquilo. E, desde então, tento levar essa lição para a vida.
Não é fácil.
Mas a frase me ensinou muito sobre nossas decepções. Elas nem sempre nascem daquilo que as pessoas fizeram, mas daquilo que imaginamos que deveriam fazer.
No trabalho, fizemos uma verdadeira revolução tecnológica: Reduzimos os tempos de manutenção, melhoramos os processos de compra e passamos a oferecer à direção uma visão muito mais clara dos veículos e de toda a operação.
Em menos de dois anos, atingimos os objetivos que havíamos traçado. Saímos da idade da pedra lascada da informática para aparecer em revistas especializadas como uma das dez empresas que melhor utilizavam sistemas de informação na gestão dos negócios da área.
Mas, olhando para trás, percebo que o maior resultado daquele trabalho não foi tecnológico.
Foi humano.
Porque, no meio de sistemas, máquinas, processos e indicadores, encontrei um amigo que levo comigo até hoje.
A vida colocou Hélio no meu caminho quando eu precisava de um profissional e foi além: presenteou-me, sem que eu soubesse, com um amigo.
Talvez seja assim que a vida costuma nos presentear.
Às vezes, ela embrulha seus melhores presentes em situações que parecem apenas trabalho, obrigação ou desafio.
Só depois percebemos o que realmente recebemos.
Hélio foi um desses presentes.
E posso dizer, com gratidão, que muito do que conquistei naquele desafio só foi possível porque tive ao meu lado alguém que sabia muito de processos, mas que, acima de tudo, sabia muito de gente.