terça-feira, 25 de agosto de 2026

Forjando o caráter


Tem uma coisa muito interessante na arte da cutelaria: ela é feita de brutalidade e delicadeza, de força e paciência.

O cuteleiro pega o aço, coloca na forja e espera até que fique incandescente.

Retira do fogo, aplica o bórax e começa a malhar... Golpeia, aquece novamente, golpeia.. 

Sé é um trabalho com aço-damasco, o processo ainda tem a parte do corta, dobra, sobrepõe, aquece e forja novamente.

Camada sobre camada, os diferentes aços vão se unindo até formar uma única barra, com um padrão também único.

Depois vem a modelagem do formato da lâmina. Voltam à cena a forja e a marreta. Golpe após golpe, o metal vai adquirindo a forma desejada.

Depois vem a retificação: corta, desbasta, lixa, corrige, até que, pouco a pouco, aparece a lâmina planejada.

Mas ainda não está pronta. É preciso submetê-la a um tratamento térmico, aquecendo e resfriando o aço de maneira controlada para que adquira resistência e dureza.

Após toda essa “brutalidade”, começa o trabalho delicado da afiação. Um pequeno erro pode comprometer tudo o que foi feito até ali.

Para finalizar, vem o preparo do cabo, com madeira, metal, osso, pedra ou chifre. O material é medido, cortado, perfurado, ajustado e polido até se encaixar perfeitamente à espiga da faca.

Sem o cabo, a faca estaria incompleta. Ele dá equilíbrio, segurança, conforto e beleza.

O cabo está para a faca assim como a moldura está para um quadro: não é a obra, mas está ali para valorizá-la.

Talvez criar um filho tenha alguma coisa a ver com tudo isso.

No meu caso, criar filhas.

Minha consciência de pai sempre me disse que eu precisava prepará-las para o mundo.

E o mundo não é gentil, muito menos justo o tempo todo.

Não devo viver a vida delas. Se as quero fortes para a vida, não posso poupá-las de suas quedas, dores ou decepções. Mas, devo prepará-las para quando elas acontecerem.

Talvez seja por isso que dizemos que o caráter se forja.

A vida é a forja. As dificuldades são o fogo. As experiências são os golpes. Os valores que ensinamos são as ferramentas...

E nós, pais e mães, somos um pouco como o cuteleiro.

Precisamos saber quando deixar nossos filhos enfrentarem o fogo e quando retirá-los dele.

Não é fácil. Nenhum pai gosta de ver um filho sofrer.

Às vezes queremos protegê-los de tudo, mas não estaremos sempre ao lado deles.

Chega o momento em que precisamos confiar no que ajudamos a construir.

Porque nosso trabalho não é fabricar a vida dos nossos filhos, é ajudá-los a construir a própria vida.

E talvez a nossa maior responsabilidade seja justamente essa: prepará-los para um mundo do qual sabemos que não poderemos protegê-los para sempre.

Como o cabo, precisamos dar segurança sem impedir o movimento.

Como a moldura, precisamos valorizar sem tentar ser a obra.

Porque nossas filhas não são nossas obras.

São pessoas únicas, com seus próprios sonhos, escolhas, caminhos, acertos e erros.

Nós apenas ajudamos a prepará-las para que possam percorrê-los.

E quando elas seguem adiante, enfrentando o mundo, fazendo suas escolhas e conquistando seus próprios espaços, percebemos que todo aquele fogo, aqueles golpes e aqueles momentos difíceis tiveram um propósito.

Não queríamos viver por elas. Queríamos apenas que fossem fortes o suficiente para viver.

E talvez essa seja uma das maiores provas de amor de um pai:

forjar o caráter sem aprisionar a liberdade.

O meu grande desafio, no fim de tudo, é fazê-las entender uma coisa:

tudo o que fiz foi por amor.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A esperança

 

No início da década de 2000, fui convidado a trabalhar numa empresa que cuidava de sistemas hospitalares. Minha função, entre outras, era treinar a equipe de atendentes e coordenar as marcações de consultas dentro de hospitais públicos.

Chegamos a marcar mais de 25 mil consultas por mês. Esse número pode parecer grande, mas era pequeno diante da demanda.

Esse hiato entre o possível e o necessário gerava a pior parte de trabalhar ali, dizer "Não podemos marcar sua consulta. As agendas estão lotadas."

E fazer isso diante de pacientes carentes, alguns com casos sérios que o tempo poderia agravar, era especialmente difícil. Vi muita gente sofrida sair dali desesperada. Isso mesmo: sem esperança.

Aquilo batia diretamente no meu lado humano a tal ponto que havia dias em que eu saía do hospital e caminhava até uma pequena capela que ficava ali perto.

Não ia rezar… Ia chorar... Chorar pela minha impotência diante daquelas situações. Ia até lá para me recompor. Depois, voltava.

Foi ali que descobri que ter humanidade não é uma fragilidade que precisamos esconder. Muito pelo contrário. Era justamente aquilo que me permitia continuar fazendo aquele trabalho: tratar as pessoas com o respeito que mereciam e acolher suas dores com dignidade.

Naquele período, a vida me colocou diante de seus extremos.

Fui acometido por uma grave doença. Vi o nascimento da minha filha mais nova. Convivia diariamente o sofrimento dos pacientes que chegavam ao hospital. Minha primeira filha escolheu ir morar com a mãe. E, pela televisão, assisti ao atentado das Torres Gêmeas - mortes em massa, cuja dimensão parecia alcançar o mundo inteiro.

Vivi medo, chegada, partida, limitações e insegurança, tudo junto e misturado.

Hoje penso que havia um fio  ligando tudo aquilo. A esperança.

Porque talvez seja ela que nos faz continuar quando a vida começa, quando a dor chega e até quando a morte parece ter vencido.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Todo mundo quer ser feliz....

 


Todo mundo quer ser feliz.

Mas o que é, afinal, essa felicidade?

Penso que a felididade não seja uma meta a alcançar, mas aqueles instantes em que sentimos que nada falta e nada sobra.

Para alguns, ela chega como uma onda: intensa, luminosa e passageira. Para outros, está mais no caminho que na chegada — nas paradas, nas contemplações, nos encontros, desencontros e reencontros.

A felicidade também tem uma matemática curiosa: não se divide, multiplica-se. Quanto mais compartilhamos, mais ela parece crescer.

Mas felicidade não é uma constante. É movimento. Vem em ondas.

Há quem se desespere na calmaria e quem tente segurar a onda quando ela chega. Talvez ambos estejam procurando controlar aquilo que não pode ser controlado.

A vida é como o mar. Há momentos de espera e momentos de plenitude. Na calmaria, podemos ajustar a postura, preparar a remada e esperar. Quando a onda chega, resta estar presente para vivê-la.

Ela vai passar. Sempre passa.

Mas isso não diminui o que aconteceu.

Talvez a felicidade não esteja em encontrar um mar sem ondas, nem em fazer a onda durar para sempre.

Talvez esteja em aprender a "surfar".

E, quando o mar novamente se acalmar, simplesmente preparar-se para a próxima.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EP - 4 - Manuzé

 

Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 4 — Manuzé.

Há pessoas que, de tão únicas, parecem não ter nascido. Parecem ter sido inventadas e Manuzé era uma delas.

Seu nome já anunciava essa singularidade. Era para ter sido Roberto. Os pais mudaram para Manoel José. Em casa era Betinho. Para nós, simplesmente Manuzé.

Nasceu para a arte, escrevia como poucos. Ainda adolescente já fazia poesia. Depois vieram o teatro, onde escrevia, dirigia e atuava; a pintura, a música e tudo aquilo que transformasse emoção em expressão. Era apaixonado por Gal Costa, pelas palavras e pela beleza escondida nas coisas simples.

Mas seu maior talento, sem sombra de dúvidas, era saber ouvir,  acolher sem pressa. E, quando finalmente dizia alguma coisa, quase sempre encontrava exatamente a palavra de que o outro precisava.

Talvez por isso tenha colecionado tantos amigos.

Tive o privilégio de dividir com ele algumas composições. Chegava com um pedaço de papel e perguntava, quase sem pretensão: — Será que isso serve para alguma coisa?

Então lia:

"Tudo o que eu quero vem de mim, mas não sou o que penso, pois quando digo não, queria dizer sim."

E, de repente, uma música começava a nascer.

Assim escreveu livros de poesia, peças de teatro e participou da fundação do Movimento dos Escritores Independentes. Mas a definição de que mais gostava era simples:

"Agitador Cultural."

Agitava ideias, pessoas e coragem.

Também gostava de me desafiar. Um dia me colocou para servir de dublê de ator. Noutro, convenceu-me a fazer um show de voz e violão completamente no improviso.

Sua explicação era inesquecível: "É bom viver no improviso. A vida não faz ensaio."

Talvez essa frase explique melhor do que qualquer outra o homem que ele foi.

Porque, por trás da alegria quase permanente, existia uma tristeza que poucos conheciam.

Depois veio o HIV, que levou a perda parcial da visão. 

Para alguém que enxergava o mundo através das cores, aquilo foi uma crueldade.

Mas houve uma dor ainda maior, viver o abandono.

Manuzé passou a vida aproximando pessoas — ouvindo, acolhendo, criando pontes por meio da arte. No entanto, justamente quando mais precisava de companhia, muitos desapareceram.

No seu último aniversário, havia apenas quatro amigos ao seu lado.

Nunca consegui esquecer essa imagem, Porque, às vezes, a solidão machuca muito mais do que a própria doença.

Ele partiu alguns meses depois.

Só soube quando tudo já havia acontecido.

Durante muito tempo pensei que havia perdido a oportunidade de me despedir, mas, hoje acredito que não.

Nossa despedida aconteceu ao longo da vida, em cada música que compusemos, em cada conversa sem hora para terminar, em cada improviso que ele transformava em aventura.

Manuzé nunca me ensinou a escrever poesia. O que ele me ensinou foi muito maior: mostrou que a vida também pode ser uma obra de arte
— imperfeita, improvisada e, justamente por isso, profundamente humana.

Algumas pessoas desaparecem do mundo quando partem, outras continuam acontecendo dentro daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.

O Manuzé é uma delas.