Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 3 — Zé
Tenho um amigo de adolescência, o Zé, que é muito mais do que um simples amigo.
Aliás, existe nome mais simples do que "Zé"?
Pois essa simplicidade toda sempre escondeu uma pessoa extraordinária.
Sem ser cientista, filósofo ou mestre espiritual, desde muito jovem ele já vivia segundo uma filosofia própria. Enquanto muitos procuravam respostas nas pessoas, ele parecia procurá-las na natureza, no silêncio e naquilo que escapa às explicações. Sempre caminhou em busca da paz interior e do encontro com o inexplicável, o impalpável e o intangível.
Vivemos muitas aventuras juntos. Éramos quase "penetras profissionais" dos fins de semana. Nossa missão era simples: divertir-nos. Mas havia uma regra silenciosa que nunca quebramos: o respeito. Queríamos apenas aproveitar a vida, conhecer gente nova, dançar, cantar e colecionar boas histórias.
Também compartilhávamos outros prazeres: escrever, tocar violão e compor. Muitas tardes terminavam na Praça de Casa Forte. Sentávamos à sombra das árvores e transformávamos cenas do cotidiano em letras de música. Confesso que raramente nascia uma obra-prima. Mas isso nunca foi importante. O verdadeiro encanto estava em descobrir que qualquer momento da vida podia se transformar em arte.
O Zé tinha ainda um talento que sempre me fascinou. Desenhava figuras inteiras com um único traço contínuo. Nunca esqueci um beija-flor visitando uma flor. Era de uma simplicidade desconcertante. Um único risco no papel e, de repente, a natureza inteira parecia respirar diante dos nossos olhos.
Talvez fosse inevitável que aquele rapaz acabasse encontrando seu lugar entre as plantas. O amor que sempre teve pela natureza o levou às matas, às orquídeas e, finalmente, a uma forma muito própria de viver. Meu amigo tornou-se orquidófilo. Mas, muito antes disso, já cultivava delicadamente tudo aquilo que realmente importa.
A vida, com seu fluxo inevitável, afasta as pessoas. Mas os amigos de alma nunca desaparecem. Como diz a canção, a amizade verdadeira a gente "guarda para certas ocasiões". E o mesmo tempo que um dia nos separou encarregou-se de nos colocar frente a frente outra vez, devolvendo o conforto e a alegria que só os reencontros sinceros conseguem oferecer.
Hoje, quando olho para o Zé, tenho a impressão de que ele finalmente encontrou a sua verdadeira morada. Vive em um sítio, cercado pela terra e pelas orquídeas que tanto ama. Parece ter construído uma vida em perfeita harmonia com aquilo que sempre carregou dentro de si.
Foi observando sua trajetória que aprendi uma das lições mais bonitas da amizade.
Há pessoas que passam a vida tentando encontrar o seu lugar no mundo. Outras, como o Zé, passam a vida construindo um mundo onde finalmente podem ser quem sempre foram.
Talvez seja por isso que gosto tanto de reencontrá-lo. O Zé me lembra que a paz não é um lugar onde chegamos. É uma forma de caminhar.

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