quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EP - 4 - Manuzé

 

Cinema Falado

Mais uma História da Vida

EP- 4 — Manuzé.

Há pessoas que, de tão únicas, parecem não ter nascido. Parecem ter sido inventadas e Manuzé era uma delas.

Seu nome já anunciava essa singularidade. Era para ter sido Roberto. Os pais mudaram para Manoel José. Em casa era Betinho. Para nós, simplesmente Manuzé.

Nasceu para a arte, escrevia como poucos. Ainda adolescente já fazia poesia. Depois vieram o teatro, onde escrevia, dirigia e atuava; a pintura, a música e tudo aquilo que transformasse emoção em expressão. Era apaixonado por Gal Costa, pelas palavras e pela beleza escondida nas coisas simples.

Mas seu maior talento, sem sombra de dúvidas, era saber ouvir,  acolher sem pressa. E, quando finalmente dizia alguma coisa, quase sempre encontrava exatamente a palavra de que o outro precisava.

Talvez por isso tenha colecionado tantos amigos.

Tive o privilégio de dividir com ele algumas composições. Chegava com um pedaço de papel e perguntava, quase sem pretensão: — Será que isso serve para alguma coisa?

Então lia:

"Tudo o que eu quero vem de mim, mas não sou o que penso, pois quando digo não, queria dizer sim."

E, de repente, uma música começava a nascer.

Assim escreveu livros de poesia, peças de teatro e participou da fundação do Movimento dos Escritores Independentes. Mas a definição de que mais gostava era simples:

"Agitador Cultural."

Agitava ideias, pessoas e coragem.

Também gostava de me desafiar. Um dia me colocou para servir de dublê de ator. Noutro, convenceu-me a fazer um show de voz e violão completamente no improviso.

Sua explicação era inesquecível: "É bom viver no improviso. A vida não faz ensaio."

Talvez essa frase explique melhor do que qualquer outra o homem que ele foi.

Porque, por trás da alegria quase permanente, existia uma tristeza que poucos conheciam.

Depois veio o HIV, que levou a perda parcial da visão. 

Para alguém que enxergava o mundo através das cores, aquilo foi uma crueldade.

Mas houve uma dor ainda maior, viver o abandono.

Manuzé passou a vida aproximando pessoas — ouvindo, acolhendo, criando pontes por meio da arte. No entanto, justamente quando mais precisava de companhia, muitos desapareceram.

No seu último aniversário, havia apenas quatro amigos ao seu lado.

Nunca consegui esquecer essa imagem, Porque, às vezes, a solidão machuca muito mais do que a própria doença.

Ele partiu alguns meses depois.

Só soube quando tudo já havia acontecido.

Durante muito tempo pensei que havia perdido a oportunidade de me despedir, mas, hoje acredito que não.

Nossa despedida aconteceu ao longo da vida, em cada música que compusemos, em cada conversa sem hora para terminar, em cada improviso que ele transformava em aventura.

Manuzé nunca me ensinou a escrever poesia. O que ele me ensinou foi muito maior: mostrou que a vida também pode ser uma obra de arte
— imperfeita, improvisada e, justamente por isso, profundamente humana.

Algumas pessoas desaparecem do mundo quando partem, outras continuam acontecendo dentro daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.

O Manuzé é uma delas.


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