No início da década de 2000, fui convidado a trabalhar numa empresa que cuidava de sistemas hospitalares. Minha função, entre outras, era treinar a equipe de atendentes e coordenar as marcações de consultas dentro de hospitais públicos.
Chegamos a marcar mais de 25 mil consultas por mês. Esse número pode parecer grande, mas era pequeno diante da demanda.
Esse hiato entre o possível e o necessário gerava a pior parte de trabalhar ali, dizer "Não podemos marcar sua consulta. As agendas estão lotadas."
E fazer isso diante de pacientes carentes, alguns com casos sérios que o tempo poderia agravar, era especialmente difícil. Vi muita gente sofrida sair dali desesperada. Isso mesmo: sem esperança.
Aquilo batia diretamente no meu lado humano a tal ponto que havia dias em que eu saía do hospital e caminhava até uma pequena capela que ficava ali perto.
Não ia rezar… Ia chorar... Chorar pela minha impotência diante daquelas situações. Ia até lá para me recompor. Depois, voltava.
Foi ali que descobri que ter humanidade não é uma fragilidade que precisamos esconder. Muito pelo contrário. Era justamente aquilo que me permitia continuar fazendo aquele trabalho: tratar as pessoas com o respeito que mereciam e acolher suas dores com dignidade.
Naquele período, a vida me colocou diante de seus extremos.
Fui acometido por uma grave doença. Vi o nascimento da minha filha mais nova. Convivia diariamente o sofrimento dos pacientes que chegavam ao hospital. Minha primeira filha escolheu ir morar com a mãe. E, pela televisão, assisti ao atentado das Torres Gêmeas - mortes em massa, cuja dimensão parecia alcançar o mundo inteiro.
Vivi medo, chegada, partida, limitações e insegurança, tudo junto e misturado.
Hoje penso que havia um fio ligando tudo aquilo. A esperança.
Porque talvez seja ela que nos faz continuar quando a vida começa, quando a dor chega e até quando a morte parece ter vencido.

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