Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 8 - Saudações aeronáuticas, tudo bem com vocês?
Não, Lito. Não está tudo bem.
Você partiu ontem.
E a partida de um amigo que nunca tive o prazer de conhecer, de conversar ou de abraçar me causou uma dor enorme.
Eu estava acostumado a esperar pelos domingos, pelo seu:
“Senta que lá vem história.”
E eu o convidava a entrar na minha sala para me contar histórias e curiosidades da aviação, explicar seus mistérios ou tentar entender os porquês dos acidentes.
“Turbulência não derruba avião.”
Pois é, Lito...
A turbulência causada pela sua partida me jogou no chão.
Eu sabia que sua doença era muito grave. Mas, mesmo assim, guardava aquela esperança teimosa de que o diagnóstico estivesse errado, que surgisse um novo tratamento, um medicamento milagroso, desses que chegam pelo delivery, entregues pelas asas de um anjo.
Mas não deu.
E talvez seja justamente agora que eu entenda melhor uma coisa que a vida vem me ensinando há muito tempo:
ninguém está isolado do mundo em que vive.
De formas e intensidades diferentes, as pessoas nos tocam.
Algumas através do exemplo.
Outras, pelos ensinamentos que levamos para a vida.
E há aquelas que simplesmente despertam alguma coisa dentro de nós.
Não é necessário que estejam fisicamente ao nosso lado.
Basta que suas palavras, suas obras ou seus feitos cheguem à nossa consciência.
Aí a mágica acontece.
Hoje, as telas são como janelas.
Por elas entram pessoas que nunca estiveram na nossa sala, nunca apertaram nossa mão, nunca ouviram nossa voz.
Mas, de alguma maneira, passam a fazer parte da nossa rotina.
Foi assim com você, Lito.
Minha identificação com Joselito Geraldo de Souza começou por algumas de suas paixões: aviões e música.
Mas havia mais. Você era nordestino.
Vinha de uma família humilde.
Era sedento por conhecimento e não poupou esforços para crescer na vida.
E tinha uma característica que, para mim, fazia toda a diferença: você não guardava o conhecimento para si. Você compartilhava com o prazer de uma apaixonado.
Pegava aquilo que conhecia profundamente e traduzia para quem, como eu, sabia pouco de aviação.
E fazia isso de uma maneira que nos fazia querer voltar no domingo seguinte.
“Senta que lá vem história.”
E lá vinha você.
Com uma história, uma explicação, uma curiosidade, uma pergunta ou uma resposta para alguma coisa que talvez nem soubéssemos que queríamos entender.
Você ensinava sem parecer que estava ensinando.
E, sem saber, foi ocupando um pequeno espaço na minha vida.
Um espaço que eu nunca havia lhe oferecido conscientemente.
Até que percebi que você já estava lá.
É curioso pensar nisso.
Eu nunca conversei com você.
Nunca apertei sua mão.
Nunca sentei diante de você para ouvir uma dessas histórias presencialmente.
E, mesmo assim, hoje sinto sua falta.
Talvez seja porque amizade não dependa apenas da convivência.
Talvez algumas pessoas entrem em nossa vida pela porta da frente, outras, entram pela tela de um dispositivo eletrônico.
E algumas, como você, entram pelas duas coisas mais poderosas que temos para aproximar pessoas que nunca se encontraram: a palavra e a emoção.
Você falava de aviões.
Eu ouvia histórias.
Mas, no caminho, você acabou falando também de coragem, conhecimento, trabalho, família, sonhos e da vontade de fazer melhor.
Por isso sua partida dói.
Não porque eu tenha perdido alguém que conhecia pessoalmente.
Dói porque perdi alguém que, sem saber, fazia parte dos meus domingos.
E talvez seja isso que você tenha sido para tanta gente:
um amigo que nunca conheceram pessoalmente, mas que conheceram de verdade.
Hoje não haverá “Senta que lá vem história”.
E isso dói.
Mas as histórias ficaram.
Ficaram os ensinamentos, as risadas, ficaram os aviões, as músicas e, principalmente, ficou aquilo que você conseguiu colocar dentro de nós.
Você costumava dizer que turbulência não derruba avião.
Hoje eu entendo que talvez a vida seja um pouco assim também.
Ela nos sacode.
Às vezes nos joga de um lado e para o outro.
Mas aquilo que construímos dentro de nós pode nos manter no ar.
Você construiu muita coisa dentro de muita gente.
Por isso, Lito, mesmo sem nunca termos conversado, permita-me chamá-lo de amigo.
Você ganhou esse lugar.
E agora que a sua última viagem começou, só me resta agradecer pelos muitos domingos em que você entrou pela minha tela e sentou na minha sala. E olha que não foram poucos, fora quase 15 anos de Saudações aeronáuticas, meu amigo.
Agora não ouvirei mais "Até o próximo voo"
Mas quero acreditar que, de alguma maneira, em algum lugar, ainda haverá uma história esperando para ser contada... e dessa vez será a tua história.
Bom voo, Lito.
