quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Carlitos - Uma aula de empatia

Um professor que nunca conheci

Há pessoas que admiramos. Há outras que amamos sem nunca termos conhecido. Charles Chaplin é uma dessas para mim.

Demorei a escrever sobre ele. Pesquisei, li, vi e revi os filmes, e as palavras sempre me pareciam pequenas. É a timidez de quem está diante de um ídolo: a gente sabe o que sente, mas não sabe como dizer.

Chaplin conheceu cedo a pobreza, a fome e o abandono. Gosto de pensar que aprendeu o que a vida às vezes leva décadas para ensinar: quem conhece a dor enxerga a dor dos outros. E ele enxergava o faminto, o solitário, o rejeitado, o trabalhador explorado. Não ria da miséria. Encontrava o riso dentro dela.

Eu o vejo como um dos maiores gênios que a arte já produziu, e não só o cinema. Foi ator, diretor, roteirista, produtor e compositor, mesmo sem formação musical. Era perfeccionista até a obsessão: queria que a tela mostrasse exatamente o que tinha na cabeça. Criou uma linguagem própria, feita de rosto, corpo e gesto, e com ela dizia muito sem quase falar.

Aquele homenzinho de chapéu-coco, bengala e sapatos grandes parecia carregar o mundo nas costas. Desajeitado, cambaleante, às vezes derrotado, mas sempre caminhando. Por isso Carlitos continua atual: nós também tropeçamos, caímos, perdemos, e levantamos porque não há outra coisa a fazer. Até "Smile", que ele compôs, virou quase um hino a essa teimosia de seguir em frente. a poesia posta sobre a música é de John Turner e Geoffrey Parsons que entenderam o clima melancólico e o sofrimento da melodia.

Smile para mim, é uma espécie de mantra, um jeito de aliviar o peso de viver.

"Sorri vai mentindo a tua dor / e ao notar que tu sorris / todo mundo irá supor / que és feliz"

Mas ele não fazia arte só para divertir. Havia uma pergunta escondida atrás de cada piada: que mundo estamos construindo? A pobreza, a desigualdade, a exploração e o autoritarismo estavam ali, nos filmes. Isso incomodou gente poderosa. Na perseguição anticomunista nos Estados Unidos, virou alvo de investigações e, em 1952, estando na Europa, teve o direito de voltar ao país revogado. Foi viver na Suíça com a família. Não conseguiram exilar Carlitos: a obra ficou.

Em 1972, Chaplin voltou para receber um Oscar Honorário e foi aplaudido de pé por doze minutos. Naquele momento, o público apenas não aplaudia só Charles Chaplin, pedia desculpas a Carlitos.

Mas o que mais me toca nele não é o prêmio. É a capacidade de transformar sofrimento em delicadeza. Conheceu a fome e criou personagens que continuavam acreditando. Conheceu a pobreza e criou um homem que preservava na dignidade mesmo sem ter quase nada. O sorriso dele parecia dizer: "A vida não está fácil. Eu sei. Mas vamos tentar mais uma vez."

Eu entendo que o humor é a forma mais leve e franca de falar a verdade e esse pensamento embala a obra de Chaplin de forma perfeita. O humor é o pano de fundo para as denúncias de violência, injustiça, solidão e abandono, ao mesmo tempo torna os problemas mais leva para que possamos suportá-los.

Nunca apertei a mão de Chaplin, nunca conversei com ele. Ainda assim, ele me ensinou que sensibilidade não é fraqueza, que dá para abraçar alguém com um sorriso, e que a grandeza de um homem não está em quantas vezes ele vence, mas em como continua caminhando depois de cada derrota.

Obrigado, Carlitos. Foi pena não ter te conhecido. Mas, pensando bem, talvez eu tenha te conhecido do jeito que importava.

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