Cinema Falado
Mais uma História da Vida
EP- 09 - A Raposa e as Uvas
No início da década de 1980, vivíamos a época de ouro das bandas de baile em Pernambuco.
Havia pelo menos seis grandes bandas na cena pernambucana, animando os finais de semana nos clubes sociais do Grande Recife, do interior e até de cidades de estados vizinhos. Era comum se apresentarem na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em Alagoas.
Cada apresentação era um acontecimento. As bandas movimentavam as noites, os clubes e, principalmente, a juventude.
Nunca toquei em nenhuma delas, mas tinha bons amigos nesse circuito de bailes e festas. Muitas vezes, acompanhava o pessoal nessas viagens, muito mais pela diversão do que por qualquer outra coisa. Ainda assim, para mim, aquilo era uma espécie de aprendizado sobre a vida de músico.
Numa dessas viagens, a banda tinha uma sequência de três apresentações no Rio Grande do Norte, na quinta, na sexta e no sábado. A última seria em Mossoró, se não me falha a memória, na APCEF.
O repertório era eclético. Tinha de tudo um pouco, do samba à música pop da época, para agradar a todos os gostos e não deixar ninguém parado.
Chegamos à cidade por volta das onze da manhã, vindos de Parnamirim. Antes de seguirmos para o hotel, fomos descarregar os equipamentos no clube. Isso levou algum tempo. Depois, almoçamos e finalmente fomos descansar um pouco.
A rotina de estrada era pesada. Chegava-se ao local com bastante antecedência, montavam-se os equipamentos, passava-se o som e conferia-se tudo para ver se estava funcionando como deveria.
O baile começava por volta das dez da noite e terminava às três da madrugada. Aí vinha a desmontagem dos equipamentos, o retorno ao hotel e duas ou três horas de sono, quando muito, antes de pegar a estrada novamente.
Naquela noite, o baile foi um sucesso.
Quando o cantor anunciou que a festa estava chegando ao fim, um grande empresário local procurou o gerente da banda e fez uma proposta: pagaria o mesmo valor do contrato para que os músicos continuassem tocando até os primeiros raios de sol aparecerem no horizonte.
É claro que os olhos do gerente brilharam. Cifrões dançavam diante deles.
Ele tratou logo de convencer músicos e técnicos a permanecerem no palco. Houve resistência, naturalmente. Afinal, aquele era o terceiro dia de estrada, e todo mundo estava cansado, querendo voltar para casa.
Mas o homem era bom de conversa e o dinheiro, sempre ele, falava mais alto. Conseguiu convencer o grupo.
Os músicos voltaram às suas posições, empunharam os instrumentos e a banda recomeçou.
Mal terminou a primeira música, uma voz se levantou no meio do salão. Era o novo contratante:
— Toca A Raposa e as Uvas!
A banda não tinha a música no repertório. Mas, como ali só tinha fera, o tecladista puxou o tom, e os demais acompanharam.
A música terminou.
— De novo! De novo! — gritou o homem.
E, como ele estava pagando, a banda obedeceu.
Foi assim durante quase duas horas.
Eu estava sentado no chão, no fundo do palco, me acabando de rir da cara dos músicos. Ao meu lado, o baixista, que continuava tocando de pé, parecia prestes a cometer um crime. Virou-se para mim e, num tom que misturava ódio e resignação, disparou:
— Nunca foi tão difícil ganhar dinheiro!
A partir daquele dia, passei a entender melhor a vida de quem toca em barzinhos e restaurantes.
Porque, convenhamos, uma coisa é tocar para quem gosta de música. Outra, bem diferente, é tocar para quem paga a conta e decide que a mesma música precisa ser ouvida mais umas vinte vezes.

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